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Por Roberta Ribeiro para Trash 80′s

Falar em diversidade sexual no início da década de 1980 era mais ou menos o mesmo que mexer num vespeiro. E daqueles bem grandes. Apesar de toda a liberação sexual, ocorrida a partir dos anos 70, o meio artístico ainda se mostrava pouco à vontade com a questão da homossexualidade de quem o freqüentava.

Não era raro que atores e músicos, por exemplo, preferissem manter escondidas suas orientações sexuais, para poderem preservar um mínimo de privacidade em suas vidas. Assumir-se gay era causar escândalo, na certa.

A situação começaria a mudar quando, na Londres 80’s pós-punk, surge o movimento artístico-social New Romantic. Tornarem-se celebridades, diferenciarem-se por meio de roupas e maquiagem extravagantes, muito glamour, ostentação e hedonismo eram características básicas do movimento, que também flertava com a liberdade sexual e a ambigüidade.

Como ícone do grupo, ninguém menos que Boy George, líder do Culture Club. Sempre maquiado e vestido de forma nada ortodoxa, George causou frisson ao aparecer na mídia. Muito antes de avaliarem a qualidade do trabalho desenvolvido pela banda, os críticos viram no vocalista uma nova forma de sexualidade, que denominaram de figura unissexual. Afinal, não era possível dizer com certeza se George era menino ou menina e o que queria significar seu visual andrógino. Tamanha controvérsia fez com que muitos afirmassem que tudo não passava de um golpe publicitário bem dado, a fim de chamar a atenção da mídia para o Culture Club.

O que a maioria não sabia é que, ainda na adolescência, George O’Dowd (nome verdadeiro de Boy George), chegou a ser expulso da escola, após várias brigas e punições, por não se enquadrar nos “padrões considerados normais”. Vindo de família numerosa (tem mais seis irmãos), é possível que tenha utilizado esse visual “rebelde” para chamar a atenção dos pais e dos que o cercavam. Mas isso é o que menos interessa. Ao colocar em questão sua sexualidade, George fez com que mídia e público refletissem sobre os caminhos a serem tomados nos anos que viriam. Mostrou que ser aceito depende muito mais de talento e competência do que de ajustar-se às constantes mudanças de padrões conservadores e de curta duração.

Prova disso é que boa parte da história do músico foi reconstituída na peça Taboo, que retrata o novo-romantismo e suas influências por meio da história de George.

Se hoje a orientação sexual já não acaba com carreiras e o preconceito tem diminuído devagar, mas constantemente, pode-se agradecer, em parte, à coragem e rebeldia de Boy George, que modificou o panorama da sexualidade, ao menos no meio artístico.