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Por Paulo Simas para Trash 80′s

Nos anos 70, o jovem Petit era a personificação do estereótipo do garotão carioca, aquele tipo despreocupado e amante da natureza. Ele, que passava os dias em meio às ondas e mulheres de Ipanema, serviu de inspiração para Caetano Veloso compor “Menino do Rio”. O surfista era um resumo tão preciso daquela turma de rebeldes bon vivants que, quando ele se suicidou, em 1989, alguns pensaram que toda uma geração tinha chegado ao fim. Bobagem. O jeito Petit de ser já tinha conquistado seu lugar na cultura popular. E uma pessoa em especial se empenhou em apresentá-lo à massa: o ator André di Biase.

Apesar de ter nascido no Espírito Santo, Biase tinha tudo o que era preciso para ser um típico menino do Rio: era praticante do surfe, tinha o corpo em cima, o cabelo longo e descolorido pelo sol, e um charme que mesclava cafajestagem com romantismo juvenil. Sua estréia no cinema, portanto, não poderia ser em outro papel: em Nos embalos de Ipanema (1978), ele vivia um surfista de subúrbio que, ao se apaixonar por uma moça rica, buscava ascensão financeira por meio da prostituição.

O filme é festejado até hoje, tanto pela crônica social que faz quanto por levar temas novos ao universo da pornochanchada. Mas a novidade mesmo viria em Menino do Rio (1981), também do diretor Antônio Calmon. Foi o primeiro “filme para jovens” do nosso cinema e, talvez por isso, um sucesso de público. Baseado na música de Caetano, era protagonizado pelo personagem de André di Biase, um surfista de vida simples que vai para a Zona Sul e se apaixona por uma modelo da Fiorucci. Embaladas pela trilha sonora, que tinha “De repente, Califórnia”, de Lulu Santos e “Garota Dourada”, do Rádio Táxi, as platéias esqueciam que estavam numa sala de cinema e cantavam música por música.

Diante dessa euforia, nada mais natural do que uma continuação, exibida três anos depois. Garota Dourada tinha praticamente o mesmo elenco do filme anterior e trazia o personagem de Biase disputando com outro surfista o amor de uma mulher, interpretada por Andréa Beltrão. Até que aquela mesma modelo de Menino do Rio reaparecia para confundir tudo. Resultado: outro sucesso de bilheteria.

Depois dos três filmes, a dupla Calmon-Biase não tinha mais dúvidas de que histórias de amor e de surfe eram um filão a ser explorado. Em 1985, quando levaram essa idéia para a televisão, poderiam ter produzido uma minissérie teen sobre praias e azaração sem grande relevância. Mas a ditadura militar tinha acabado de cair e, de repente, o país tinha sido tomado por uma euforia não só política, mas artística também. Todos queriam experimentar novas linguagens e liberar as idéias que haviam sido reprimidas. Com esse espírito, o ator e o diretor se juntaram a nomes como Guel Arraes, Nelson Motta, Daniel Filho e, a peça-chave, Kadu Moliterno. Nascia, assim, a série Armação Ilimitada, que foi ao ar de 1985 a 1988.

Pioneira em usar referências de histórias em quadrinhos e do surrealismo, a história era audaz por si só: falava de dois amigos amantes dos esportes, Juba (Moliterno) e Lula (Biase), que viviam um triângulo amoroso consensual com Zelda (Andréa Beltrão). Os dois rapazes eram donos de uma empresa, a tal Armação Ilimitada, que resolvia qualquer problema que os clientes tivessem. A dupla cativou os espectadores de tal maneira que sobreviveu mesmo depois do fim da série.

Em 89, e durante menos de dois meses, Juba e Lula deram nome a um programa infantil de jogos e aventura. As equipes competiam em labirintos, pistas de skate e tudo o mais que parecesse radical. Os apresentadores também se esforçavam para transmitir mensagens ecológicas. A fórmula, como se vê, não tinha nada de nova. Os fãs do antigo seriado se decepcionaram e as crianças não embarcaram na onda. A atração foi cancelada e a dupla, que a essa altura já tinha gravado disco e virado personagem de gibi, deixou órfã toda uma geração de jovens.

Os dois atores voltaram a se encontrar somente muitos anos mais tarde, na temporada 2002 de Malhação. Mas quem assistiu a André di Biase como o coadjuvante engenheiro Vinícius deve sentir uma saudade danada de seus tempos de garotão praiano. O problema é que as pessoas crescem e os tempos mudam. Os meninos do Rio definitivamente não vivem para sempre.