| TÚNEL
DO TEMPO
Veja São Paulo (25/09/2002)
Elas usavam calça baggy, penteado repicado e
brinco de um lado só. Eles, calça de popeline
verde-limão, camisão e tênis iate
com estampa quadriculada. Nas melhores baladas, que
aconteciam no Rose Bom Bom, no Madame Satã ou
no Q.G., todos ouviam Madonna, Michael Jackson, Smiths
e New Order. Apesar do visual um tanto brega, para alguns
paulistanos não houve década mais quente
que a de 80. Tanto que diversas casas noturnas da cidade
resolveram organizar festas inspiradas na música
e nos símbolos da época. Com sucesso.
"As pessoas estão um pouco cansadas da batida
incessante das músicas de hoje", afirma
Fernando Montini, sócio da Boogie Disco, na Vila
Olímpia, casa especializada em flashback que,
às quintas-feiras, só toca som dos anos
80.
O público que vem lotando essas festas tem entre
25 e 35 anos. Duas décadas atrás, estava
começando a descobrir a noite. "Fui DJ do
Espaço Harry nos anos 80 e não agüentava
mais ouvir grunge e tecno", conta o webmaster Marcos
Vicente. "Por isso, decidi organizar eventos para
relembrar os bons tempos." Ele é um dos
responsáveis pelo Projeto Autobahn, que faz festas
mensais no Gotham, em Pinheiros. Um dos espaços
mais disputados é a sala de Atari. Sim, o antediluviano
Atari. Vicente leva videogames, alguns de seus 120 cartuchos
e televisores antigos. A moçada se diverte tentando
bater recordes em jogos como Pitfall e Enduro (alguém
ainda se lembra deles?).
Apesar de a moda ter trazido de volta algumas peças
e tendências que marcaram a época, como
cores cítricas, blusas de um ombro só
e saias com volume, pouca gente além dos próprios
organizadores investe em uma caracterização
mais fiel. Marcos Vicente, por exemplo, usa blazer com
camiseta por baixo e lenço no pescoço.
É, segundo ele, o estilo new romantic, popularizado
pelos vocalistas dos grupos Duran Duran e Spandau Ballet.
A terapeuta corporal Karen Cocina, 22 anos, usa meia
arrastão e espartilho. "É uma homenagem
a Madonna", diz ela, fã convertida de grupos
como The Cure e Smiths por influência da irmã
mais velha, que é casada com Wayne Hussey, vocalista
do grupo inglês The Mission.
Quem
não leva o revival tão a sério
aproveita para brincar com alguns de seus símbolos.
Na escrachada Trash 80's, que há cinco meses
enche, todos os sábados, o bar e o saguão
do Hotel Cambridge, ouve-se Olivia Newton-John, Madonna,
Cyndi Lauper, Metrô e as lentas de Kenny G. "Nos
anos 80, a gente ficava dando uma de alternativo e fingia
que não gostava desse tipo de música",
assume o DJ Enéas Neto, que divide os pick-ups
com o DJ Tonyy. "O mais legal é admitir
que esse som é divertidíssimo, ótimo
para dançar." Em um dos últimos sábados,
Tonyy e Neto receberam um convidado especial: Márcio,
o vocalista do Trio Los Angeles. Mais trash, impossível.
por Tatiana Schibuola
foto de Julio Vilela
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