| NOSSO BOM E
VELHO BAR
O Estado de São Paulo (29/11/2002)
Daniela
e Camila são duas jovens na faixa dos 20 e poucos
anos. Desconfio que seja 26, porque as duas são
viajadas, falam línguas, são descoladas,
bem-humoradas. Uma é designer, trabalha na arte
da revista Vogue. A outra é produtora executiva,
daquela gente pau para toda obra, como se dizia antigamente.
O antigamente se refere a mim. Estavam as duas na redação
a conversar e a rir, borbulhantes. "Nem imagina
onde fomos ontem." Como imaginar? Tudo o que via
é que tinha sido alguma coisa original, diferente,
tinha sido um barato. Ainda se diz barato? É
que com a efemeridade das palavras, das gírias,
dos códigos das diversas tribos, a gente sempre
desconfia que não está usando a palavra
adequada, aplicando o termo justo.
Retrato dos nossos tempos em que tudo é efêmero,
das palavras aos gestos, das tendências aos sentimentos.
Quase disse emoções.
"Meu pai nem acreditou, quando contei onde fomos",
acentuou Daniela, que tem uma coleção
incrível de sapatos e sandálias daquelas
que dá gosto a gente olhar a pessoa caminhar.
"Pois perguntei ao meu se ele iria lá. Me
olhou bem, achando que eu estivesse fora de mim. Pensou
um minuto, quase disse sim, preferiu o não."
Que lugar seria esse que as fazia espertas, sorridentes
numa manhã cheia de trabalho, pressionadas pelo
humor do Zequinha Barbosa, homem atento a cada gesto
das pessoas que trabalham com ele.
"O mais engraçado é que entramos,
passamos por um lugar pequeno e escuro e, quando vimos,
estávamos num lobby de hotel. Perguntamos: e
o bar? O recepcionista apontou para a saleta de onde
tínhamos vindo. Caímos na gargalhada.
O bar que procurávamos era aquela saleta. Voltamos
e nos instalamos." Fiquei olhando. Bar. Hotel.
Uma saleta? Onde as duas tinham ido? Fosse o que fosse,
tinham se divertido.
"Que lugar foi esse?" Quem resistiria a perguntar?
Os olhos delas brilhavam.
"O bar do Cambridge." Foi a vez de os meus
olhos saltarem. O bom e velho bar do Cambridge? "Não
acredito. Curtiram?" Era uma pergunta inútil,
estava na cara delas. "Foi... foi... diferente.
Naquele bar minúsculo, tudo pareciam velho, mas
as pessoas estavam numa boa. Bebiam, cantavam e dançavam...
Agora, nem queira saber as músicas... A gente
não acreditava... Tocou até o Balão
Mágico... Depois, ouvimos Locomia... Voyage,
voyage... Acredita?
Voyage, voyage... tínhamos 13 anos."
Então, o bom e velho bar do Cambridge é
de novo um point no centro da cidade? Não resisti:
"Ainda tem os banquinhos de couro vermelho? E que
tipo de gente vai lá?" As duas riram de
novo. "Gente... gente como nós... e gente
de 50 anos... e descolados... e caretas... e peruas...
e jovens. E todos se divertiam, dançavam... Até
nós... Afinal, era a noite dos Trash Eighties..."
Então, pensei no Cambridge, quando o centro ainda
era o centro. E quando a Editora Abril era do lado.
Vizinha. Uma porta junto da outra. A Abril ainda era
pequena. Na hora do almoço, descíamos
correndo para pegar lugar e comer um Clube Sandwich,
enorme, valia por um almoço. No pequeno bar do
Cambridge cabia quase toda a Abril. Lá estavam
Glória Kalil, Luis Carta, eventualmente Roberto
Civita, Thomaz Souto Correa, Isabel Montero, Olga Krell,
Attilio Baschera, Janine (essa mesma, da rede de beleza),
Flávio Prado, Oscar Colucci (esse mesmo, da agência
de publicidade), Paulo Paulista, Carola Whitaker, Luis
Lobo, Yllen Kerr, Nilce Cervone, hoje Tranjan, Giba
Um, Lu Rodrigues, Caloca Fernandes, Sonia Robato. Redatores,
designers, fotógrafos, publicitários,
às vezes algumas modelos da Rhodia como Giedre
ou Inge.
Uma síntese da Abril que se preparava para mudar
para a Marginal do Tietê, mudança que nos
assombrava. Fazer o quê, naquele fim de mundo?
Como sobreviver longe do centro, dos restaurantes, dos
cinemas (fugíamos no meio da tarde, víamos
a sessão das 4 e voltávamos), das lojas?
Como sobreviver sem o velho e bom bar do Cambridge,
que tínhamos apelidado de "nosso Harry's
Bar", o legendário lugar de Veneza onde
Hemingway tomava dry-martinis e onde foi inventado o
carpaccio?
Ir para a Marginal e deixar para sempre um breve happy
hour no fim do dia, principalmente no verão,
quando as tardes se alongavam? Foi toda uma geração
que viveu nas banquetas de couro vermelho daquele bar
à margem da Avenida Nove de Julho. Juro, eu imaginava
que tivesse acabado, fechado. Apenas o fechei na memória.
Agora, numa manhã de chuva, Daniela e Camila,
duas jovens reabriram o bar para mim. Ele existe, resiste.
Pedaços da gente que imaginamos fora de nosso
corpo retornam. De outro jeito, mas vivos em suas trash
eighties!
por Ignácio De Loyola Brandão
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