| NO CENTRÃO,
OS AGITOS DE UMA SP OCULTA
Jornal da Tarde (16/08/2002)
Fiel freqüentador da noite do centro de SP ao
longo dos anos 80, o escritor e músico Alex Antunes
foi conferir e viu que a 'maluquice' voltou à
região
Houve época em São Paulo que "sair
para uma balada" significava ir em direção
ao centro. Numa das eras mais legais da noite paulistana,
ao longo dos anos 80, as casas de onde despontaram bandas
como Legião Urbana, Titãs e até
o RPM ficavam no centrão. Começou com
o Napalm, em 84, praticamente embaixo do Minhocão,
e continuou com o Madame Satã, no Bixiga, e o
Retrô, em Santa Cecília, num período
que dá pra dizer que vai até dez anos
depois no Sra. Kravitz, quando a dance music já
tinha substituído o rock, mas a estética
dos porões de parede preta ainda vigorava.
Mais do que a podreira das paredes pretas havia um
ecletismo saudável, uma mistura de estilos, de
tribos e de sexos, que às vezes dava curto-circuito
mas, em geral, era marcada por uma atitude criativa,
tolerante (exceto talvez com os playboys) e bem-humorada.
No auge disso tudo, em 85 ou 86, na mesma noite do Satã,
era possível encontrar legítimos punks
da periferia fazendo cara de mau, a Rita Lee, neo-românticos
fazendo cara de angústia, atrizes lindas e transformistas
toscos, o João Gordo tentando dar porrada na
cara do Cazuza que só queria beijinho... Isso
sob os gritos da mulher performática que comia
repolho cru na jaula, e o olhar satisfeito do Wilson
José, Dionísio reencarnado num ex-seminarista
que comandava a esbórnia toda.
Para quem tinha uma banda (e quase todo mundo tinha
- a minha era a Nº. 2, e depois a Akira S &
as Garotas que Erraram), houve um circuito de quase
uma vintena de casas onde era possível tocar
- do Rose Bom-Bom nos Jardins até o Ácido
Plástico, antiga igreja (!) ao lado do Carandiru
(!).
Mas o centro era... o centro, onde a noite começava
e terminava, num caso de amor meio sadomasô com
SP, no que a cidade tinha (e tem) de decadente, fantasmagórico,
como uma velha dama libertina trancada com suas memórias
e manias.
Depois, ao longo da década de 90, essa cena
desbaratinou. O dinheiro fujão (o dinheiro em
SP costuma ser covarde, nunca está onde é
mais necessário) migrou para o conforto playboy
da Vila Madá e da Vila Olímpia, e a criatividade
se entrincheirou no gueto. Na década do pagode,
breganejo e axé, a música mais inventiva
se fragmentou entre vários fundamentos: o periférico-revoltado
do hip-hop, o gay-festivo da house, o neo-hippie do
trance, o quase-jazz do drum'n'bass etc. Os aspectos
mais performáticos e literários da cena
desapareceram.
No centrão, os agitos de uma SP oculta


por Alex Antunes,
especial para o JT
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