| FESTA
ESTRANHA, GENTE ESQUISITA
Revista Época 26/01/2004
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT665719-1664,00.html
As festas embaladas por música eletrônica,
geralmente associadas ao uso de drogas como ecstasy
ou, no mínimo, a uma envolvente névoa
de fumaça de cigarro, estão perdendo espaço
para um novo tipo de balada que mistura performance
teatral, arte, música cafona e, principalmente,
um elemento-surpresa. 'Balada tem de ser autêntica
e trazer algo inédito. Sou uma pessoa diferente
e preciso de uma balada diferente', diz Luana Saggioro,
estudante paulistana, de 18 anos. Luana era uma das
600 pessoas que prestigiaram a terceira edição
da Kumbaya, anunciada como 'encontro de pessoas felizes'.
Realizada no fim do ano passado, a festa contou com
a presença de um corpo de bailarinos para lá
de alternativo. Na alta madrugada, eles ocuparam o centro
da pista e dançaram ao som de músicas
'orgânicas', uma mistura de sons tribais com barulhos
de água e vento. No fim da apresentação,
mais um susto. Os dançarinos sacaram uma penca
de bananas, que descascaram e comeram, tudo em frente
ao público, dançando, sem dizer nada.
A platéia não entendeu, mas pareceu ter
gostado. 'Só vim à festa porque ela é
arte e cultura', diz o estudante de ciências sociais
Paulo Manolti, de 25 anos, ä que se divertiu numa
cama elástica armada perto do bar - que vendia
sanduíches naturais e suco de clorofila.
A festa foi montada onde funciona um circo-escola e
atraiu gente de todas as tribos. Com decotes à
mostra, barriguinha de fora e sandálias de salto,
as patricinhas chacoalhavam o esqueleto, fora de ritmo,
ao lado de garotas descalças, com trajes indianos
e cabelos cuidadosamente despenteados. 'É um
verdadeiro encontro com o cosmos', diz Fernanda Riskavio,
de 35 anos, que durante a semana trabalha como engenheira
de produção.
Sucesso total, a Kumbaya já inspira baladas em
casas noturnas. No Centro de São Paulo, a casa
noturna Caravaggio promove há quase dois anos
a disputada Trash 80's. Criada pelo DJ Tonyy, a festa
GLS atraiu também o público heterossexual
com o 'melhor do pior dos anos 80'. 'Tocamos o pior
da música trash. Era para ser um fracasso, mas
o público adora', diz o DJ, com unhas pintadas
de preto. Tonyy cuida de tudo, do aluguel da casa à
decoração - que, evidentemente, é
o supra-sumo do kitsch, com gaivotas pintadas a guache,
piso quadriculado em branco e preto e um globo de espelhos
pendurado no teto. A fila chega a dar a volta no quarteirão
quando cai a madrugada, enquanto lá dentro o
clima ferve - principalmente quando uma drag queen sobe
ao mezanino e interpreta um clássico como 'Xanadu',
com direito a transmissão simultânea do
clipe no telão. 'Rejeitar aquilo que já
foi moda é uma hipocrisia', diz a empresária
Bianca Campos, de 24 anos, empolgada ao som da música
'Companheiro', do grupo Dominó.
As festas esquisitas fazem sucesso até em alto-mar.
A proposta do cruzeiro Flash Back é levar os
embalos dos anos 60, 70 e 80 aos viajantes que partem
de Santos com destino a Salvador, Búzios e Arraial
do Cabo. A balada flutuante não custa pouco:
o pacote de sete noites sai por US$ 780, em cabine dupla.
As bandas de covers, segundo a agência de viagens,
são reconhecidas internacionalmente e vão
agitar os tripulantes durante todos os dias na piscina
e nos salões de festa.
A mania de inovar nas baladas começou fora do
Brasil. Na Holanda, uma rave realizada no ano passado
fez muito sucesso depois que resolveu aderir ao silêncio.
Os organizadores tiveram uma solução para
não incomodar os vizinhos com a música
alta: entregavam aos convidados fones de ouvido e radinhos
ligados em rede. Na pista, todos curtiam a mesma música,
mas cada um na sua. Os únicos ruídos eram
as batidas dos sapatos, os estalos de beijo e os cochichos
ao pé do ouvido. Nova York foi pioneira em festas
conceituais, como a 'balada ioga', onde adeptos da modalidade
se reúnem para sessões coletivas de exercícios
e meditação. Sem álcool, sem drogas,
sem rock'n'roll. Mas com energia positiva.
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