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VOLTA AOS ANOS 80
Revista Época 02/05/2003
As roupas, a música, o cinema e o consumo da
década perdida estão na moda
Por Paula Pereira
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT546241-1664,00.html
Os anos negros da moda estão de volta. Não
apenas negros, mas pink, verde-limão e laranja
fosforescente, ou todas essas cores juntas. Aquele visual
extravagante, que incluía ombreiras e cós
alto, cabelos armados como os de Glenn Close em Atração
Fatal e minissaia com legging - que rendeu aos anos
80 o aposto de 'década das trevas' do estilo
-, ressurge nas coleções da moda. Mas
quem esconde no fundo do armário as fotografias
daquela período não precisa se arrepiar
de horror. Os anos 80 voltam suavizados, melhorados.
E vêm embalados em boas recordações
da música, do cinema e da TV.
'Todos os estilistas significativos, como Alexandre
Herchcovitch, Icarius e Walter Rodrigues, passaram por
essa crise de volta aos 80, que agora chega às
confecções de massa', diz Raquel Valente,
do curso de moda da Faculdade Santa Marcelina, em São
Paulo. Ela agora prevê o fim da era da chapinha
e da escova - pelo menos até o próximo
revival, o dos anos 90 - e a volta dos penteados frisados
e repicados.
A aposta da confecção catarinense Colcci
em calças de boca afunilada, roupas com punho
e zíperes alavancou as vendas da recém-lançada
coleção inspirada nos 80. 'Mas deixamos
de lado o oversizing de blazers e as terríveis
ombreiras', diz Lila Colzani, chefe de estilo da marca.
Alexandre Herchcovitch, na última coleção
da Cori, resgatou o uso de roupas de ginástica
no dia-a-dia, típico da obsessão por malhação
da década. 'Gosto dos volumes, da combinação
de formas e cores extravagantes e do contraste do largo
com o justo', explica.
Além das roupas, os 80 ressuscitam na música,
nos desenhos animados - o He-Man repaginado acaba de
estrear na TV a cabo - e no cinema. Sites nostálgicos
trazem jogos e listas de produtos e seriados que aplacam
a saudade de quem era adolescente há duas décadas,
sempre ironizando a extravagância daqueles anos.
Embalada nessa onda, parte da safra nacional de rock
dos 80, como RPM, Capital Inicial e Kid Abelha, regravou
sucessos do passado. Bandas internacionais como New
Order e Pet Shop Boys, algumas delas já desmanteladas,
como Soft Cell e Blondie, também retomaram turnês
em que os velhos hits agradam mais ao público
que os novos. Filmes como E.T. e a seqüência
de Guerra nas Estrelas ganharam novos efeitos e voltaram
a lotar as salas de cinema. Até a atriz Jennifer
Lopez embarcou no clima. Num clipe de seu último
CD, encarna a personagem principal do clássico
Flashdance, de 1983, com roupa de ginástica,
camiseta rasgada e um indefectível par de polainas.
A Paramount cogita convidar Jennifer para estrelar a
refilmagem de Flashdance, que está nos planos
do estúdio.
'Nos anos 80, criou-se uma estética aberrante,
com o uso excessivo de cores e artificialismo', avalia
o crítico Ruy Gardnier, da revista de cinema
Contracampo. A década também foi marcada
por novidades tecnológicas ä e efeitos especiais
que consagraram nomes como Steven Spielberg e seus enredos
de aventura e fantasia.
De tempos em tempos, o baú do século XX
é revirado e décadas perdidas vêm
à tona. No caso da cultura, o resgate se explica
porque é mais garantido apostar num sucesso já
testado e aprovado. 'As pessoas de 40 anos hoje têm
dinheiro para consumir os CDs e DVDs das bandas do tempo
em que eram jovens', diz Walter Garcia, professor de
canção popular da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo. 'É lucrativo
oferecer um produto que será consumido por um
maior número de pessoas, desde o que era novo
naquele tempo até os jovens atuais. 'Além
disso, reempacotar exige menos gastos com marketing
do que lançar um produto novo.
O sociólogo Waldenyr Caldas, diretor da Escola
de Comunicação e Artes da Universidade
de São Paulo, também encara os revivals
mais como fruto do marketing que da espontaneidade do
público. 'Volta-se sempre uma década ou
duas explorando a nostalgia das pessoas.' Caldas ressalva
que, à exceção de um ou outro movimento
de contestação, como os dos darks e punks,
os anos 80 foram precários em revoluções
no comportamento ou conquistas sociais. 'As décadas
de 60 e 70 foram muito mais criativas e realmente transformaram
a sociedade, por isso são mais inspiradoras',
pontua.
O exagero e o visual 'poderoso' dos anos 80 refletem
o que se passava no Brasil e no mundo, como o fenômeno
yuppie, dos jovens workaholics empenhados em conquistar
seu milhão de dólares antes dos 30 anos.
Surgiam os primeiros PCs e videogames, a Aids se disseminava
e acabava a Guerra Fria. No Brasil, foram os anos do
fim da ditadura militar, da hiperinflação
e da morte do presidente Tancredo Neves, embalada pelo
som de 'Coração de Estudante', de Milton
Nascimento.
Para o webmaster Enéas Neto, de 38 anos, os anos
80 não passaram de 'um prato cheio para o pop
brega'. Ele é um dos criadores da Trash 80's
(lixo dos anos 80, em inglês), noite dançante
de uma boate de São Paulo em que até 400
sobreviventes da década se reúnem ao som
das mais duvidosas músicas daquele tempo, como
'Menina Veneno', de Ritchie, e a balada new wave 'Who's
Gonna Drive You Home... Tonight?', dos Cars. Entre esses
oitentistas fanáticos está o administrador
Vanderlei Schiavolin, de 31 anos. Ele coleciona discos
de vinil, assiste a filmes da época, usa tênis
Mad Hats e óculos espelhado Spy. 'Adoro os jogos
do Atari, que descarrego da internet', conta, referindo-se
ao videogame ancestral.
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