Por Carlos Emílio Faraco para Trash 80′s

TRAVESSIA

Carlos Emílio Faraco



“ Caía a tarde feito um viaduto

E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona de um bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens, lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco
Louco, o bêbado de chapéu –coco

Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil…
Meu Brasil…
Que sonha,
Com a volta do irmão do Henfil,
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete….
Chora a nossa pátria, mãe-gentil…
……………………………………………..”

(O Bêbado e a Equilibrista, 1979)

Só louco mesmo, ou bêbado, pra fazer qualquer irreverência à “noite” — leia-se ditadura — que tinha se instalado no Brasil em 31 de março de 1964.
Quando Elis gravou a música, já fazia quinze anos que o povo brasileiro sonhava alto. Sonhava com a volta de Betinho – o irmão do Henfil – e tantos outros que se exilaram fugindo da perseguição política que não arrefecia. A mordaça do governo militar apertava cada vez mais. Fechadas as janelas para qualquer brisa democrática, só havia uma saída: as frestas. Foi por essas frestas, manejando com maestria as palavras, que nossos artistas procuravam traçar poeticamente um mapa do Brasil.
Vivíamos num país de entrelinhas; compositores e cantores mais que nunca viraram intérpretes de uma identidade coletiva amedrontada, que se queria livre.
“Dois homens fumando juntos pode ser muito arriscado”, cantava Raul Seixas, em “Metrô 743”….
Num festival da canção, Jair Rodrigues era porta-voz do protesto:
“… porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata,
Mas com gente é diferente…”

Os Mutantes acompanharam um Caetano exaltado e não-compreendido:
“É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir”

Em 1969, Elis Regina, em turnê européia, disse que o país era governado por “gorilas”. Cana nela? Não! Uma “convocação” para cantar nas Olimpíadas do Exército, na comemoração do Sesquicentenário da Independência (1972). Era aceitar ou… aceitar.
E assim como acontecia na música, dezenas de contos, romances, peças de teatro foram sendo censuradas… Até a novela Roque Santeiro, de 1975, teve de esperar dez anos para estrear.
O tempo foi-se escoando entre canções engajadas, canções bajulatórias, canções descompromissadas… E sucediam-se os ditadores militares.
Em 1984, o povo se mobilizou pela aprovação da emenda Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para a Presidência da República. Grandes comícios em todo o país, culminando com o de São Paulo, que reuniu um milhão e quinhentas mil pessoas.
A cantora Simone trouxe à tona de novo a música de Vandré:
“Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não… “

O auge, no entanto, deu-se quando Fafá de Belém mostrou que tinha peito e voz para cantar o Hino Nacional.
Pra quem estava ali, parecia que era a hora do “ou vai ou racha”. Tinha-se a sensação de que o país ia explodir se não houvesse as diretas…
Uma trilha sonora costurava a movimentação da gente.

Milton liricamente dizia:
“De quem é essa ira santa
Essa saúde civil
Que tocando na ferida
Redescobre o Brasil?”

Chico desejava, como todos nós:
”Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar.(…)”

Entre o comício e a data marcada para a votação da emenda, dia 25, as manifestações continuaram, mesmo em Brasília, apesar da proibição do então Presidente João Figueiredo.

Chico Buarque descreve assim o estado do país:

“Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando um cordão
Dão oito horas e danço de blusa amarela
Minha cabeça talvez faça as pazes assim
Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas
Eu pensei que era ela voltando pra mim….”

(Pelas Tabelas)

A ira santa não adiantou. O panelaço não funcionou. A coisa não passou e a “página infeliz da nossa história” não foi virada de vez. A emenda Dante de Oliveira não foi aprovada pelo Congresso. A euforia deu lugar à decepção.
Mais uma vez a música seria nossa porta-voz. Agora, expressava a morte da esperança.

“Quero falar de uma coisa,
Adivinha onde ela anda?
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar.
Pode estar aqui do lado
Bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
É o nome certo desse amor
Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu…”

No entanto, uma faísca riscava o tom sombrio da música:

“Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor e fruto…”

Os frutos vieram. Apesar de as eleições serem indiretas, o povo saiu vitorioso: Tancredo Neves foi eleito pelo Colégio Eleitoral, derrotando o candidato da situação – Paulo Maluf.
A ditadura tinha sido derrubada. Sem o estrondo esperado, mas estava vencida.
Iniciava-se o processo de abertura política. A posse de Tancredo estava marcada para 15 de março. Na véspera, o quase-presidente foi internado, com fortes dores abdominais. Depois de 7 cirurgias, morreu de infecção generalizada. Para acentuar a tragédia, Tancredo morreu em 21 de abril, uma das datas mais cultuadas do calendário cívico brasileiro.
No mesmo dia assumiu o vice, José Sarney, que governaria até 1989, quando ocorreu a eleição por voto direto, depois de 25 anos de ditadura militar.
Fernando Collor de Melo era Presidente da República.

“E nestes dias tão estranhos
Fica poeira se escondendo pelos cantos
Este é o nosso mundo: o que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance.
Ninguém vê onde chegamos:
Os assassinos estão livres, nós não estamos
Vamos sair – mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas”

(Teatro dos Vampiros. Legião Urbana)

*
Quem examina as capas de VEJA do ano de 1992, depara com figuras como Jesus Cristo, Madonna, um pedófilo assassino e, numa edição extraordinária, com o rosto cabisbaixo de Fernando Collor de Melo encimando uma legenda curta e grossa: “Caiu”.
O Presidente da República tinha sofrido impeachment. Motivo: corrupção.
Haja espanador!

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