Por Paulo Simas para Trash 80′s
19/03/07

No amontoado de fotos e letras das bancas de jornal, uma capa faz toda a diferença. Afinal, ela chama a atenção do leitor para determinada revista, que será folheada e, talvez, levada para casa. Mas como se faz uma boa capa de revista? Nos anos 70, Richard Stolley, o primeiro editor da People, deu sua fórmula: “Jovem é melhor do que velho. Bonito é melhor do que feio. Rico é melhor do que pobre. Cinema é melhor do que música. Música é melhor do que televisão. Televisão é melhor do que esportes. Qualquer coisa é melhor do que política. E nada é melhor do que a morte de uma celebridade”.

A receita parece ter dado certo, já que a People é a revista que mais fatura no mundo inteiro. O sucesso fez com que as palavras de Stolley fossem seguidas por publicações de todos os estilos, e não só pelas de celebridades. Mas, se não é muito difícil fazer uma capa de revista que venda bem, continua não existindo fórmula para capas de revista realmente marcantes. Isso porque elas requerem ousadia e sofisticação, ingredientes não encontrados em qualquer receita.

Desses trabalhos que merecem destaque, os 41 melhores foram escolhidos em 2005 pela Sociedade Americana de Editores de Revista (ASME). É óbvio que a seleção não foi muito além do mercado americano, mas ela vale como curiosidade. É interessante notar, por exemplo, que os anos 80 não se saíram nada bem nessa eleição. Das 4 décadas analisadas, foi a que menos teve representantes: apenas 3. Já os anos 60 tiveram 11, contra 8 dos 1970, 10 da década de 90 e 9 de 2000 em diante.

Não é possível saber no que o júri estava pensando, mas é fato que a maioria das capas da época queria informar de forma seca e direta. Não foi um período de muita criatividade para a imprensa, que estava mais preocupada em antecipar fatos históricos (queda do comunismo, epidemia de Aids, fim das ditaduras latino-americanas…) do que em revolucionar a linguagem das capas.

Mas, se isto serve de consolo, a primeira colocada é de 1981 e mostra John Lennon abraçado a Yoko Ono na capa da Rolling Stone. Além dela, a National Geographic e a Details também apareceram na lista. Confira as três representantes dos anos 80 na eleição da ASME:

1º lugar – Rolling Stone (22 de janeiro de 1981)

A fotógrafa Annie Leibovitz fez a imagem horas antes de o músico ser assassinado, em 8 de dezembro de 1980. A foto acabou sendo usada na edição seguinte, que prestava um tributo ao ex-Beatle. Ela comprova a máxima de que uma imagem vale mais do que mil palavras: diante da perplexidade que tomou conta do mundo, não era preciso dizer nada. Bastou mostrar Lennon abraçado a sua esposa, Yoko Ono, que todo mundo entendeu. E se emocionou.

10º lugar – National Geographic (junho de 1985)

É difícil não se comover com o olhar da menina de 12 anos. Sua família tinha sido assassinada e seu vilarejo destruído durante os bombardeios soviéticos no Afeganistão. Ela foi fotografa por Steve McCurry num campo de refugiados na fronteira com o Paquistão, depois de fugir pelas inóspitas montanhas do país. O rosto de Sharbat Gula logo se transformou numa das imagens mais reproduzidas da História.

37º lugar – Details (fevereiro de 1989)

O que chama a atenção nesta capa é a produção da fotografia de Cyndi Lauper, que remete a um visual tipicamente hollywoodiano. É uma ironia em relação ao tema principal da entrevista, em que ela fala sobre uma viagem que fez para a União Soviética.

E no Brasil?

Por aqui, a Associação Nacional de Editores de Revista (ANER), escolheu as 20 melhores capas publicadas entre 1986 e 2006. Talvez por só considerar os 4 últimos anos da década, nenhuma das selecionadas era dos anos 80. Mesmo assim, se o critério fosse as mais polêmicas, certamente haveria uma representante oitentista: a edição da Veja de 26 de abril de 1989, que trazia um moribundo Cazuza na capa. “Uma vítima da Aids agoniza em praça pública”, ostentava a manchete sensacionalista, que provocou a ira de amigos e familiares do cantor.
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