Por Paulo Simas para Trash 80′s

Numa das seqüências mais escatológicas do cinema, um sujeito morbidamente gordo, vestindo roupas femininas e usando maquiagem exagerada, come as fezes de um cachorro. Motivo: quer provar que merece o título de pessoa mais obscena do mundo.

A cena, que encerra o filme Pink Flamingos (1972), foi gravada sem nenhum efeito especial. O cachorro era mesmo um cachorro, o cocô era de fato cocô e o sujeito era Divine – o que explica muita coisa. Essa drag queen obesa, com suas perucas enormes e descabeladas, vestidos kitsch e olhos pintados como os de um palhaço, se esforçava para superar todos os limites do convencional.

Mas quem conheceu Harris Glenn Milstead na infância e na adolescência provavelmente não imaginava que ele um dia iria se tornar sinônimo de nonsense. Antes de encarnar Divine, ele era apenas um adolescente gordo e efeminado que sofria com o assédio dos colegas. Apesar de o gosto pelo teatro ter aparecido já no colégio, Harris ganhava a vida trabalhando como cabeleireiro. A história dele poderia terminar aí, esquecida em algum salão de beleza. Isso se não tivesse acontecido em Baltimore, uma das cidades mais liberais dos Estados Unidos e com forte tradição de contracultura. E também se não tivesse sido sacudida por um lance de sorte, um daqueles caprichos do destino que mudam tudo.

A algumas quadras da casa dos Milstead morava John Waters, um cineasta amador que dizia não gostar dos clássicos consagrados do cinema, como O Encouraçado Potemkin. Ele preferia assistir a bizarrices como Olga’s House of Shame, que mostra cenas de tortura e estupro. Para atuar em seu segundo filme, Roman Candles (1966), Waters convidou o amigo Glenn Milstead. Ele interpretaria uma personagem tão bizarra que causaria medo no espectador: uma mistura de diva dos anos 50 com palhaço tosco. Com a ajuda de muita maquiagem, nasceu Divine.

Seis anos e alguns filmes depois, o cocô em Pink Flamingos consagrou tanto a figura da drag queen obscena quanto o cinema marginal do diretor. Ele próprio reconhece que, não fosse essa cena, provavelmente o filme não teria feito tanto sucesso nos meios alternativos. A parceria entre eles rendeu muitas outras obras, de modo que o nome de um ficou imediatamente ligado ao do outro. Waters chegou a dizer que Divine era sua Elizabeth Taylor.

Aproveitando o sucesso no cinema, Divine teve uma breve carreira como cantora de disco music a partir de 1982. Trabalhando ao lado dos produtores de Pet Shop Boys e Kylie Minogue, a drag emplacou algumas músicas em pistas de dança de todo o mundo. Hits como “I´m so beautiful”, (clique aqui para assistir ao clipe) e “Shoot your shot” eram obrigatórios nos clubinhos gays. A voz rouca e exageradamente grave era tão absurda que se tornava engraçada.

Harris Glenn Milstead reconhecia a importância de Divine na sua carreira, mas ainda assim passou boa parte dela tentando se desvencilhar da drag queen. Queria que as pessoas entendessem que ele era um ator e que aquela era apenas mais uma de suas muitas personagens. Numa entrevista para a revista Interview, ele desabafou: “Isso machuca. Noite passada eu jantei com um amigo que não via há tempos e ele me disse que foi avisado para não ir comer comigo porque eu provavelmente iria subir na mesa e vomitar em todas as pessoas’”. “Eu não vivo montado”, completou.

Ele finalmente conseguiu o que queria em 1988, quando foi convidado a interpretar o tio Otto, do prestigiado seriado Married… with children. Mas Milstead não apareceu nos estúdios. Aos 42 anos, foi encontrado morto na cama de seu hotel. Tinha sofrido uma parada cardíaca em decorrência de problemas respiratórios causados pela obesidade.

O último trabalho do ator com John Waters, concluído meses antes de sua morte, esteve à altura de seu talento. Em Hairspray (1988), Divine interpretava um homem e uma mulher e, por esse trabalho, concorreu como ator coadjuvante ao Independent Spirit Award. A história sobre uma aspirante a cantora até hoje é contada numa premiada adaptação da Broadway, que em 2007 vai ganhar uma versão para a tela grande. Nessa refilmagem, os papéis que foram da drag queen – inclusive o feminino – vão ficar por conta de John Travolta. Logo ele, que vive negando sua homossexualidade. Divine certamente adoraria.

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