Por DJ Tonyy

Vancouver, Canadá, novembro de 1978. A banda punk D.O.A. (Dead On Arrival) lança o single “Disco Sucks”, que logo se torna uma expressão cotidiana do efervescente movimento punk, que declarava abertamente seu ódio pela Disco Music.

Pausa: A sigla D.O.A. (Morto ao chegar) é comumente usada nos hospitais americanos quando um paciente dá entrada morto. Acho que serve bem para representar também o movimento punk…

Chicago, EUA, 12 de julho de 1979. Numa parceria entre os DJs Steve Dahl e Garry Meier da rádio WLUP (a mais popular da cidade) e os promotores do time de baseball White SOX, acontece o evento “Demolition Night at Comiskey Park”. Nessa noite haveriam dois importantes jogos entre o time da casa e os Detroit Tigers. Algo tipo Corinthians versus Palmeiras…

Foi anunciado que cada torcedor que levasse um álbum de Disco Music ao estádio teria um desconto na entrada e os discos seriam queimados numa grande fogueira. Ao término do primeiro jogo, e estimulados pela frase “Disco sucks” que os DJs gritavam nos alto-falantes, os cerca de 50.000 torcedores presentes iniciaram uma barbárie que ia desde o simples arremesso de discos a fogueiras feitas nas arquibancadas.

“- This is now officially the world’s largest anti-disco rally… Disco sucks… Disco sucks…” (clique para ouvir)

Além de um incontável saldo de pessoas feridas pelos “discos voadores”, que levou ao cancelamento do segundo jogo da noite ficou mais uma triste imagem dos exageros que a preconceituosa sociedade norte americana comete em seus surtos de moralismo. A mesma Chicago que se tornaria o berço da House Music (descendente direta da Disco Music) e do minimalismo Techno, foi palco desse triste, porém histórico, acontecimento repetindo antigos momentos de “caça às bruxas”.
Pausa: Liberação e hedonismo gay, drogas e o orgulho negro já eram sinônimos da Disco Music e a sociedade “branca e religiosa” norte-americana achou que já estava na hora de dar um basta nisso tudo…

A transição dos anos 70 para os 80 coincidiu com o fim da era Disco. Tivemos um período de suspiros finais e ao mesmo tempo de explosões com o nascimento de dezenas de estilos e movimentos sócio-culturais da década ainda insuperável em termos de manifestações criativas.

Um dos últimos suspiros da Disco Music era também o prenúncio do domínio da máquina que estava por vir: Giorgio Moroder e sua Computer Disco. Entre 77 e 80, Giorgio alcançou o auge de sua carreira, tanto solo quanto com seu projeto Munich Machine, e também compondo e arranjando para Donna Summer, Roberta Kelly e The Three Degrees.

Em 80, Giorgio começou a direcionar sua criatividade para o electropop, trabalhando ainda com Donna Summer e France Jolie, e também abrindo os caminhos do sucesso para Blondie, Irene Cara, Berlin, Limahl, Nina Hagen, Janet Jackson, Bronski Beat e até Sigue Sigue Sputnik, entre dezenas de outros. Ainda com o apelo pop da Disco, ele também fez as trilhas sonoras de Gigolô Americano, A Marca da Pantera, Flashdance, Top Gun, História Sem Fim, Scarface, Superman e Um Tira da Pesada.

Pausa: Já eram raras as bandas de sucesso que trabalhavam sem computadores e/ou sintetizadores eletrônicos.
Os principais sucessos da Disco em 79 hoje são verdadeiros clássicos do pop:

Alicia Bridges – I Love the Night Life
Amii Stewart – Knock on Wood
Anita Ward – Ring My Bell
Cheryl Lynn – Got to Be Real
Chic – Good Times
Doobie Brothers – What a Fool Believes
Earth, Wind & Fire – September / Boogie Wonderland
Peaches & Herb – Shake Your Groove Thing
Patrick Hernandez – Born To Be Alive
Village People – In the Navy / Y.M.C.A.

E os anos de 80 e 81 ainda produziram um grande número de sucessos pós-Disco:

Abba – The Winner Takes It All
Chic – Le Freak
Diana Ross – I’m Coming Out
Donna Summer – Bad Girls / On The Radio
Kool & The Gang – Celebration / Ladies Night
Lipps, Inc. – Funkytown
Shalamar – The Second Time Around

Em 28 de fevereiro de 1980 venceu a licença para venda de bebidas alcoólicas do Studio 54 de Nova York, o mais famoso templo da Disco Music. Exatos 28 dias depois, o clube de Steve Rubell e Ian Schrager fechou definitivamente suas portas. Meia dúzia de tentativas de reinauguração por parte de novos donos durante os anos 80 resultaram em fiascos.

Pausa: Durante o ano de 79, o Studio 54 foi alvo de seguidas perseguições, que resultaram também nas prisões de Steve e Ian por sonegação de impostos, no melhor estilo “Al Capone”… o clube também marcou como berço da ascendência dos DJs ao patamar de “pop stars”, e anunciando o fim dos DJs de estações de rádio, onde não bastava ter boa voz e locução, mas também atitude…

Punks versus Yuppies. A ascensão do punk ao mainstream e sua absorção pela cultura pop já eram então inevitáveis, e dois extremos ficaram bem claros nessa época. O boom consumista do início dos 80’s na economia norte-americana era perfeitamente representado pelos yuppies (young urban professional), que independente de valores morais, achavam que a Disco já era moda do passado. O egoísmo da postura yuppie também contrastava muito com as celebrações coletivas da Disco.

Apesar de ter como essência o ódio ao hedonismo e às futilidades da Disco, o lema “faça você mesmo” dos punks acabou servindo como estopim para dezenas de novos movimentos artísticos e culturais, que obviamente também já estavam cansados da massificação e da super exposição da Era Disco.

Dentro dessa idéia de “faça você mesmo”, começava a surgir a New Wave, que mantinha exageros estéticos como a Disco, mas buscava no rock e na inocência dos anos 50 muita inspiração.

Mas isso já é assunto prá outro papo.

Pausa: 1980 marcou o fim da Disco. Durante um ano ou dois, o pop permaneceu no limbo da transição entre o luxo e o lixo…

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Um comentário
  1. O que é bom é para sempre. A maravilhosa disco music está hoje presente em qualquer festa ou qualquer retrospectiva de boa música e é cult para qualquer idade enquanto que o tal de punk vive seu ostracismo lembrado apenas por meia dúzia de rebeldes sem causa .

    dialog

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