Por Roberta Ribeiro para Trash 80’s

Um dos ídolos mais queridos da Trash, o amante latino Sidney Magal fala sobre carreira, novela e, claro, sobre Trash 80’s. Pura simpatia.

Trash 80’s: Há um ano você fazia show com a Trash 80’s pela primeira vez. O que mudou de lá para cá?

Sidney Magal: Sem dúvida, aconteceram coisas muito interessantes, e foi de dois anos pra cá. Eu costumo dizer que, no caso específico da minha carreira, esse revival dos anos 70 e 80 me pegou de surpresa, quando a revista Trip fez uma capa de revista comigo, numa matéria maravilhosa, me chamando de o rei do pop.

Eu fiquei superfeliz porque sabia que a revista normalmente não mostrava artistas populares, não dava espaço para artistas muito populares, então fiquei muito feliz com isso, foi um dos primeiros acontecimentos que me impressionaram bastante.

Aí eu fiz a festa de dois anos da revista TPM, que também é deles, com um público tremendamente jovem, e foi um grande sucesso. Eu comecei a sentir que as coisas estavam rolando muito pra esse lado, até que veio o show da Trash que sem dúvida foi uma outra grande surpresa, uma outra grande emoção, quando eu percebi que tinha realmente um público que adorava e cultuava essas músicas da década de 70 e 80, e principalmente as minhas, né?! Isso me deixou muito feliz!

O Tonyy, o Felipe [Paltronieri, agente da Trash 80’s] sempre conversavam muito comigo sobre isso e falavam: “Magal, o público quer muito, eles pedem muito, se você não for vai ficar muito chato”. Até que pintou o espaço maior da Vila Olímpia. Porque na Trash Centro, , a primeira, que eu não conheço infelizmente, eles achavam que era muito pequenininha e não tinha condição da gente fazer alguma coisa. Então, quando surgiu o espaço maior na Vila Olímpia e eu fiz o show na Trash 80’s, desencadeou-se uma série de coisas maravilhosas, foram pintando shows muito mais jovens do que os que eu estava acostumado a fazer.

Mudou o público?

É, ele renovou. Quando a gente fala mudou, fica parecendo que mudou do público que eu tinha pra esse público. Não, ele foi renovado, quer dizer, as pessoas que antes tinham quatorze anos de idade – eu já tenho trinta de carreira – elas já tem quarenta e tantos anos de idade, já não são meninas e são mães de crianças ou de jovens de quinze anos de idade, que são essa geração nova que também começou a curtir meu trabalho. Então eu sempre fiquei questionando se não eram os pais que estavam passando toda a minha energia pra eles ou se, de repente, eles encontraram em mim mesmo uma coisa de muita energia, de muito pique, de muita vibração, que, normalmente, não se encontra em pessoas de mais de cinqüenta anos.

Rolaram coisas extraordinárias, eu fiz uma festa lá em Porto Alegre também que é muito famosa, uma festa de rock, um festival de rock enorme [Planeta Atlântida], e eles fizeram pela primeira vez um palco chamado “Balonê”, que era só anos 80 e foi um delírio! Quase derrubaram a tenda em que nós estávamos de tanta gente, estava rolando um puta show de rock no palco principal e, no entanto, o pessoal não arredava pé, cantando, vibrando, inclusive gritando “al, al, al, Magal no palco principal!”.

Eu comecei a ver que tudo isso, da Trash 80’s, da Trip, começou a abrir meus horizontes para um público muito jovem, que me deixou muito feliz, porque, de repente, não era nem uma renovação do meu repertório, era o próprio repertório da década de 70 e 80. Sem dúvida, foi muito legal.

A novela [“Da Cor do Pecado”, da Rede Globo] depois ajudou pra caramba, porque aí já pegou um público menor ainda, pegou muita criança, que não tinha nem referência de como seria o verdadeiro Magal da década de 70 e que passou a ter por causa da novela, aquela imitação que o Cauã [Reymond] fez, foi uma série de coisas que colaboraram pra caramba, né?

Então mudou muita coisa em um ano, né?

Mudou, mudou! Porque, inclusive eu já achava muita dificuldade de renovar o repertório, porque sempre que a gente quer fazer alguma coisa nova, primeiro as gravadoras começam a dar o contra, porque acham que você está controlado de uma maneira só e com um repertório só. Aí você começa a querer fazer coisas novas e não encontrar apoio de muita gente. Aí começa a entrar na tua cabeça aquela coisa do, bom, então, eu acho que, na verdade, meu tempo já passou, a minha época já passou e foi exatamente isso que os jovens não deixaram acontecer.

A maior surpresa é agora, o clipe na MTV, brigando pelo melhor clipe de MPB. Eu estou sabendo que é uma votação alucinante, está rolando um monte de coisas. Eu não tenho pretensões de realmente ganhar porque eu sei que tem o Marcelo D2, tem Los Hermanos, tem um pessoal muito legal, o próprio Arnaldo Antunes, mas, de qualquer maneira, estar ali entre os cinco já é super importante, porque é um público jovem, um público que encontra comigo nos lugares e diz “olha, to votando pra cacete no teu clipe porque eu adoro teu clipe”. Então é muito bom, eu acho que só pintou coisa boa mesmo.

Você deve gostar muito do que faz, afinal, ninguém passa trinta anos fazendo algo que não gosta. Existe alguma coisa na carreira que o incomode? Qual a melhor parte de ser famoso?

A melhor coisa, sem dúvida, é o público. Isso aí acho que é a única coisa que me faz ficar em pé no palco e ter a mesma energia, porque eu mesmo me surpreendo às vezes. Caramba, são trinta anos de disco, fora os outros anos antes, pra chegar ao primeiro disco, então eu digo, já é uma vida inteira voltada pra isso, é onde eu vou buscar energia. Por exemplo, há um mês, mais, quase dois meses, eu operei de vesícula e hérnia umbilical e nove dias depois eu estava fazendo um show, no palco, alucinadamente. O médico tinha me pedido pra não arriscar, porque podia arrebentar os pontos e tal, essas coisas, e, no entanto, a energia é uma coisa alucinante, então, a melhor coisa é o público, não há a menor dúvida.

Sem o público eu acho que talvez eu já tivesse desistido pelo meio do caminho. E a pior coisa é sempre a… o que sempre existiu e sempre vai existir. A gente está num país onde, ao mesmo tempo em que a gente tem uma criatividade extraordinária, tem talentos em todo lado, é na noite, é no barzinho, enfim, tem sempre gente, é em garagem fazendo rock, é na Bahia, “nego” criando milhões de gêneros, de ritmos e tal, então, ao mesmo tempo que tem tudo isso, a televisão e os meios de comunicação estão muito bitolados, muito voltados pra um tipo de trabalho e com um certo tipo de artista. Eles massificam de tal maneira que isso meio que vai enjoando.

Eu outro dia tava assistindo os DVDs de Chico Buarque e Ivan Lins, que eu adoro, e eu estava dizendo: “gente, que pena, a música popular brasileira infelizmente, hoje eu posso dizer isso, amanhã ou depois pode mudar, mas infelizmente jamais terá na sua história outros compositores como Chico Buarque”. Não tem como, era outra coisa, as pessoas iam brotando, iam se dando e iam dando valor a essas pessoas. E hoje em dia é muito complicado. Por exemplo, Jorge Vercilo, que eu considero da nova geração um cara que faz coisas muito bonitas, muito legais, a carreira tá perdida. Assim, você não tem “ah, é o Jorge Vercilo” [entonação de quem dá destaque a algo], como era um Djavan, como era um Gonzaguinha, entendeu? Essa massificação é o que eu vejo como a pior coisa porque você vai enchendo o saco. Por isso que quando me perguntam do revival eu digo, gente, o revival vai passar, os anos 70 e 80 vão passar, as pessoas vão começar a curtir os 90, os 2000 e eu tenho que fazer urgentemente alguma coisa pra que pelo menos meu repertório seja renovado. Então foi daí que surgiu a idéia de fazer um novo arranjo pro “Tenho”, vai ter um novo arranjo pra “Meu sangue ferve…”.

Nesse contexto de repertório, em 1996 você lançou um CD mais “sério”, com sucessos consagrados da MPB. Qual dos dois lados você prefere: o cantor clássico ou o amante latino?

(risos) Com certeza, eu não tenho a menor dúvida por mim amadureceria o meu repertório. Acho que, ao invés de ser um Ricky Martin, eu poderia ser um Juan Luis Guerra. O que eu gostaria realmente de fazer era amadurecer meu repertório latino e que ele continuasse sempre muito dançante, muito vibrante, agora, com a preocupação, obviamente, de não cair no ridículo, de não querer ficar jovenzinho a vida inteira, porque é uma coisa meio estranha.

Qual a música da sua vida, aquela que melhor traduz Sidney Magal?

Do meu repertório é óbvio que é “Sandra Rosa Madalena”! Eu não tenho como pensar diferente, por mais que eu adore as outras músicas mas é a “Sandra Rosa”.

Fora do meu repertório, eu sou eclético pra caramba com música, então… por exemplo, uma música que hoje em dia, nos meus shows ao vivo, com a minha banda, eu não deixo de cantar, porque eu acho que é a minha cara e eu não tive a oportunidade de gravar, é o “Corazòn Partío” do Alejandro Sanz, que eu acho que fica uma delícia na minha voz. Então tem coisas assim, entendeu? Que eu gostaria de fazer no palco e nunca fiz, de cantar no palco e nunca cantei. Mas, especificamente, nenhuma música antiga ou que me lembre, ou me dê mais saudade, eu sempre fui muito modernizando meu gosto. E eu também sou muito eclético, gosto de Sérgio Reis e Ivan Lins, não tem jeito.

Você fez um filme, depois arrasou no papel do comandante Frazão em “Da Cor do Pecado” e agora vai fazer o cabeleireiro Zorroh em “Bang Bang”. Corremos o risco de perder o Magal cantor para termos só o ator?

Na verdade o Zorroh é barbeiro (risos). A Globo não deixa a gente falar que ele é cabeleireiro porque naquela época não tinha, era salão do barbeiro! Só que ele é um gay que trabalha num salão de barbeiro.

Mas não, esse risco a gente não corre porque, eu digo isso constantemente, o ator é muito mais sacrificado, ele é muito menos remunerado, ele dedica realmente todo o tempo da sua vida para o teatro, pra televisão, uma coisa cansativa, né?

A minha profissão, que eu já tenho controle sobre ela, exerço da maneira que eu quero, eu faço na hora que eu quero, eu me apresento do jeito que eu quero, me visto do jeito que eu quero, se eu errar, eu erro sozinho, eu não preciso dividir com ninguém o meu erro no palco, então eu jamais trocaria. Por exemplo, lá na novela, nós tivemos hoje uma cena que reunia pelo menos uns trinta atores e uns cinqüenta ou sessenta figurantes, fora a equipe técnica, diretores, o diabo a quatro. Isso é muito enlouquecedor pra mim! A gente faz o que a gente curte, o resultado é muito bom e por questões profissionais também. Te chamam pra fazer uma coisa, você tem que fazer, né? Eu não trocaria. Realmente eu vou ficar com a música até o fim da minha vida. Mas enquanto me derem a oportunidade de fazer alguma coisa em novela, vou aceitar porque me divirto.

Você também já desfilou, pra Cavalera no ano passado. Qual das três frentes assusta mais: ser modelo, ator ou cantor?

Eu ainda acho que o que assusta mais é o ator mesmo. Eu só tive uma experiência na passarela obviamente que eu não tenho nenhuma tendência a ser modelo, nunca fui, não tenho nenhuma tendência a desfilar bem nem nada disso, mas foi uma passagem também deliciosa, o público delirou, aplaudiu, gritou meu nome, obviamente pela personalidade que eu sou e não pelo desfile em si. Foi uma coisa fácil e rapidíssima. Entrei de um lado da sala e saí do outro.

O cantor, a gente tem toda a reação do público no ato, então o tesão, o orgasmo é na hora. E o ator é sempre aquele que faz, faz, faz puta de um trabalho, se sacrifica e dias depois, o resultado vem e você nunca sabe se dependeu de que, o que aconteceu, o que rolou, se foi por causa da história, ou se foi por tua causa, enfim, eu acho realmente muito mais assustador. A profissão do ator é muito mais assustadora. É muita responsabilidade, entendeu?

Como compôs o Zorroh? Teve que fazer alguma preparação especial?

Eu procurei isso, o Ricardo Waddington [diretor da novela] me pediu. Quando fiz um pequeno teste de câmera com ele, eu o Guilherme Fontes e o Eliezer Mota, fizemos uma das cenas antes, que ele me deu pra ler, sem figurino, sem nada. Ele disse assim: “Magal, imagina um cabeleireiro viadésimo, muito louco e faz aí”. Daí eu fiz uma bichona louca, desvairada, enlouquecida, né? Ele disse: “Pois é, mas não é isso que eu quero”. Depois que eu paguei o mico, ele disse: “não é isso que eu quero, quero realmente o macho, o amante latino Sidney Magal com um lado meio gay, meio feminino, controlado”. Que é aquele cara que foi se esconder na cidade de Albuquerque. Ali, o Kadu Moliterno e o Evandro Mesquita são duas senhoras que são donas do hotel e eles são, na verdade, dois bandidos do Velho Oeste que tão se refugiando na cidade vestidos de mulheres! Uma das coisas mais gozadas da novela! E o Tonto, que é o índio, e o Zorroh também foram pra cidade, de alguma forma, pra se esconder de alguma coisa que a gente ainda não sabe o que é que é. Então o Ricardo Waddington disse: “olha, você tem que ter umas desmunhecadas, mas você é um espadachim, você teve um passado brilhante, você foi um herói e tudo mais” (risos). Comecei a brincar com isso e já nos primeiros capítulos a gente conseguiu tirar um resultado super, que todo mundo ria. Nós fizemos uma cena outro dia que o pessoal das câmeras tiveram que sair, eles saíram do estúdio pra rir, porque eles não agüentavam. Reuniu eu, o Evandro [Mesquita], o Kadu [Moliterno], o Eliezer [Mota] e mais a Talma de Freitas, que faz uma baiana – a novela é tão pirada que tem uma baiana, tem um índio, tudo no meio do Velho Oeste.

O que eu fiz pra compor foi isso, foi minha experiência também, a minha vida inteira eu convivi com homossexuais, sempre em boates e, enfim, quando eu cantava antes de ter sucesso, depois e fazendo teatro e na noite… então eu tenho muitas pessoas que me dão muitas informações visuais, de procedimento, comportamento, de tudo. Eu fiz um pouquinho de cada coisa e usei meu lado feminino, que é uma coisa que eu defendo sempre: a gente tem um lado feminino muito forte. Está dando certo. Até agora tá sendo super gostoso, eu to me divertindo muito, sei que vai ser uma “encarnação”, que eu vou segurar uma barra, que eu vou subir no palco e vai ter gente querendo me oferecer a “espada” pra eu segurar, entendeu? É um Zorroh meio estranho.

Mesmo com o Zorroh assim, você acha que a ala feminina do seu público vai continuar tão afoita quanto antes? Porque definitivamente, elas são bastante afoitas!

Eu acho que isso eu consegui e é uma coisa que me dá um tremendo de um prazer, e que vai além do meu repertório, vai além das coisas que eu fiz até hoje, é que eu consegui conquistar o público, tanto feminino, quanto as pessoas de idade, as crianças. Conquistei por um outro lado, que é muito mais interessante, é o lado humano. As pessoas vêem em mim uma pessoa legal. Então elas começaram a jogar fora os rótulos: ele não é o bregão dos anos 70, ele não é gay, ele não é o machão, ele é uma pessoa super centrada, é uma pessoa normal. Eu tenho uma vida supersaudável e isso dá muito prazer às pessoas, que se sentem bem em elogiar uma alguém que sempre se comportou muito bem, então eu acho que isso é um trunfo que eu consegui.

Em qualquer papel que eu faça, em qualquer coisa que eu faça, vão ter sempre as brincadeiras, mas no fundo há uma coisa saudável, de dizer: “olha, estamos brincando”. Sei que há mulheres que ficam enlouquecidas às vezes, por causa dos trejeitos que eu faço no palco, essas não vão deixar nunca de estar dentro da fantasia.

Mas elas não incomodam, né?

Não, imagina, a mim nunca incomodaram, muito pelo contrário, faço questão de provocá-las sempre que eu posso.

Como descreveria sua relação com a Trash 80’s? O que acha da festa?

Assim como a Trash, agora várias outras festas se formaram daí, em vários Estados. Eu já participei de algumas delas e são todas um grande sucesso, porque, primeiro, são temáticas, quer dizer, permitem que as pessoas sempre estejam muito à vontade, criem suas roupas e cheguem vestidos da maneira que querem. As músicas são aquelas músicas superenlouquecedoras dos anos 70 e 80, que só mesmo os anos 70 e 80 tiveram essa música que eleva tanto o astral. E eu acho que é um espaço maravilhoso.

A Trash pode se dar ao luxo de, amanhã, se quiser, só apresentar roqueiros ou só apresentar a música chamada brega mesmo a vida inteira porque é muito eclética também, muito colorida, apesar de ser centrada nos anos 70 e 80, por isso é Trash 80’s, né?

Eu acho que vale a pena continuar com esse tipo de festa porque os jovens se divertem muito. A gente vê muito pouca violência nessas festas todas, a gente vê um astral muito legal, a gente vê todo mundo querendo se divertir e como a minha proposta sempre foi essa, de fazer as pessoas se divertirem, aí eu me encontro com a Trash maravilhosamente bem. É uma união, uma comunhão legal, supersatisfatória.

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