Por Roberta Ribeiro para Trash 80´s

Qual a primeira imagem que vem a cabeça quando se pensa em Carnaval? Para muitas pessoas, a resposta é desfile na Sapucaí. Ok , São Paulo também tem seu desfile e ele é bonito. Mas na década de 80, quem realmente mandava no Carnaval brasileiro eram as escolas cariocas. “Paulista não entende de samba” era o que se ouvia. Com razão. Afinal era no Rio que a “magia” acontecia de forma plena.

Tudo começa com uma vitória da acadêmica Imperatriz Leopoldinense, em 1980. A escola é conhecida por temas que beiram teses de doutorado. E “O Teu Cabelo Não Nega (Só Dá Lá Lá)” não é diferente. Com uma homenagem a Lamartine Babo, o “Lá Lá” do título, a escola fez seu famoso Carnaval técnico, que encanta pela perfeição com que a escola passa pelo sambódromo. Mas que não deixa maiores marcas na memória de quem assiste.

Pulando cinco anos, em 1985 a Mocidade Independente de Padre Miguel levou o título com “Ziriguidum 2001”, desfile, esse sim, memorável. Uma viagem futurista para o ano então distante e que já havia sido tema para um clássico roteiro cinematográfico de Stanley Kubrick: “2001, Uma Odisséia no Espaço”. Menos pessimista e com refrão contagiante (“Quero ser a pioneira / A erguer minha bandeira e plantar minha raiz…”), a escola de Vila Vintém ganhou seu primeiro título na década e o coração de muitos.

Mas a grande campeã dos Carnavais 80’s foi a Estação Primeira de Mangueira. A verde-e-rosa levou os títulos de 1984, 1986 e 1987. Em comum, os três sambas-enredos têm a poesia: em 84, o homenageado foi o compositor Braguinha; 86 foi a vez do cantor e compositor baiano Dorival Caymmi ver sua vida na Sapucaí; e em 87, Carlos Drummond de Andrade (que morreria em agosto desse mesmo ano) recebeu as honrarias da verde e rosa.

Agora, uma imagem inesquecível é a do Cristo Redentor coberto por um plástico preto e com a faixa “Mesmo proibido, olhai por nós”, seguido por uma ala de mendigos, no desfile da Beija-Flor de 1989. Coisas de Joãozinho Trinta, o gênio de quatro décadas de Carnaval (começou a trabalhar nisso na década de 70), que arrumou encrenca com a Igreja Católica ao inventar de colocar um dos símbolos máximos do Rio e principal imagem para os católicos, para passar na avenida. A escola de Nilópolis pode não ter ganhado o título (que ficou com a Imperatriz Leopoldinense e seu samba “Liberdade! Liberdade! Abre as Asas Sobre Nós”), mas entrou para a história como o protesto mais carnavalizado que já se viu.

Óbvio que também foi neste período, de abertura depois de tantos anos de repressão, que se principiou a moda da nudez nos desfiles. “Musas” como Monique Evans, Magda Cotrofe e Luma de Oliveira diminuíram o tamanho das fantasias e trouxeram glamour às escolas, à frente de baterias incendiárias. Aliás, muito antes de virar o “furacão”, capa de Playboy, Luma também foi capa da revista Veja, em 1988, como madrinha de bateria no Carnaval.

O que difere o período dos dias atuais? A hegemonia carioca (o movimento da axé music na Bahia ainda era pequeno e São Paulo engatinhava), a importância de outros alegorias além dos artistas e “quase famosos” que invadem as escolas, a forma como o desfile é apresentado pela TV, com menos tecnologia e computação gráfica… O que se mantém? A animação da maior festa pagã do planeta e a beleza das agremiações que passam pela Marquês de Sapucaí, tradição da qual o país pode se orgulhar.

Gostou? Veja também:
Comente no Facebook
Comente