Por Roberta Ribeiro para Trash 80´s

Ela nasceu em 1980. E não imaginava que aquela década de sua infância pudesse fazer tanta diferença para o que viria depois. Antes que nascesse, quando era ainda apenas um projeto na cabeça de seus pais, o mundo começara a conhecer o que foi chamado de Revolução Sexual. Foi um período de libertação e de descobertas, segundo saberia depois. Mas onde veio ao mundo, essa Revolução toda demorou um pouco mais a ganhar força. Era brasileira, afinal e tinha a impressão de que tudo o que realmente ia ter um significado maior, esperara por ela.

Uma das primeiras imagens de sua memória é ver-se sentada no quintal de uma casa da cidade, aproveitando o pouco de sol que conseguia escapar ao muro alto que cercava a residência. Nas mãos, uma revista em quadrinho, escolhida e surrupiada da coleção do irmão, ciumento que não gostava de emprestá-las. Ali, via uma figurinha dentuça, gorducha e um tanto mal-humorada dar coelhadas naqueles que insistiam em provocá-la. Não levava desaforo pra casa a garotinha do gibi. Assim como a leitora, que também tinha em comum com a personagem de Maurício de Souza, o amor por um bichinho de tecido.

Já um pouco mais velha – mas não muito, porque tinha a impressão à época que a vida demorava a passar – adorava assistir televisão pela manhã. (E hoje, olhando para o passado, ela imagina por que acordava tão cedo se não era preciso, se podia dormir sossegada até cansar, já que nenhum compromisso a esperava…). Aguardava todos os dias, ansiosa, o momento em que o preferido entraria no ar. Gostava de ver sua heroína preferida em ação, voando numa nave transparente e derrubando vilões com seu laço da verdade. Em sua cabecinha de menina de cinco anos, aquele laço bem podia prender o irmão, que gostava de assustá-la e usava o aspirador de pó para amedrontá-la (monstros sugadores barulhentos!).

Nessa mesma fase, teve vontade de ser personagem de novela pela primeira vez. Os cabelos cacheados e rebeldes de Christiane Torloni na novela eram parecidos com os seus, que a mãe cortara para facilitar o pentear e que, antes de ver a atriz, ela insistia em esconder com uma touca de lã, mesmo no verão. Ela também achava muito diferente aquela moça que não queria casar e tinha fugido sete vezes do altar. Até então, acreditava que todas as mulheres tinham que ter marido…

Medo. E muita raiva. Mesmo sendo uma mocinha, com oito anos já, ela não conseguia controlar seus sentimentos quando via a bruxa da novela das oito maltratando todo mundo. Só ficou um pouco mais aliviada quando a terrível senhora morreu com vários tiros. Quem a teria matado? Foi ali que se deu conta da possibilidade feminina de ter o poder. Poder para mandar, poder para transformar a vida dos outros no paraíso ou no inferno, para fazer o que quisesse sem ter que dar maiores satisfações a ninguém. Homens novamente curvavam-se, mas desta vez, frente a uma vilã.

O fim da década e o início da pré-adolescência ainda viram a garota se tornar aficionada por dois personagens: a primeira, uma líder de banda de rock, com longo cabelo cor-de-rosa e que ia atrás do que queria, mesmo sendo um desenho animado. (Rock’n’roll, aliás, era o estilo musical preferido da menina). E a segunda, de carne e osso, trazia às telas a força das mulheres de Jorge Amado: espécies coloridas, bem resolvidas e modernas, em meio à aridez do sertão nordestino. Uma mulher que não desistiu de vencer mesmo depois de expulsa de casa pelo pai machista quando ainda nova e que podia se dar ao luxo de voltar e se fazer amar por tudo o que havia conquistado, não só financeiramente, mas também por seu caráter.

Obviamente, também conheceu mulheres-personagem submissas. Porém, em sua memória e para sua personalidade, as que ficaram foram aquelas que, de alguma forma, souberam mostrar seu valor. Que mostraram independência, atitude, carisma e força de vontade, sem, ainda assim, perder a vaidade e a ternura, ainda nos idos dos 80’s. Exemplos de mulheres que existiram apenas em nosso imaginário, mas que servem para a vida real de todas nós. Que as mulheres não tenham apenas um dia, mas todos eles para mostrarem seu valor e se destacarem!

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Um comentário
  1. Antes de opinar sobre esse surpreendente post, preciso elogiar a ótima qualidade do seu blog. Estava vasculhando sobre esse tema por milênios e você me indicou a luz no fim do túnel. Este post é tão bom que tive de colocá-lo no Reddit, espero que não se importe.

    dialog

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