Por Roberta Ribeiro para Trash 80’s

Com dois shows na Trash 80’s, Markinhos Moura abre o coração em entrevista e conta como é ser um dos intérpretes mais lembrados da década de néon. Revelações interessantes, uma voz afinada e uma personalidade doce, assim é o cantor de “Meu Mel”, que avisa aos fãs: tem perfil no orkut e espera receber muitos recados por lá!

Trash: Você tem doze discos gravados. Como escolhe seu repertório?
Markinhos Moura: Doze discos sem contar as compilações que as gravadoras põem na rua ao invés de pôr disco novo, né? Nas majors (gravadoras grandes), a gente se reunia e o produtor do disco levava uma série de fitas pra gente ouvir. Depois, havia um consenso do que devia ser gravado. Quer dizer, diziam que era um consenso, porque, na verdade, 80% do que eu gravava era escolhido pelo produtor do disco. Meu último CD, “Auto-Retrato”, foi gravado ao vivo e eu mesmo fiz o roteiro de como seria o show. Então, escolhi todas as músicas. Cantei os grandes sucessos, aqueles que tocaram no Brasil inteiro, como “Meu Mel”, “Anjo Azul” e “Estrela do Céu” e músicas de outras pessoas. Sou mais intérprete que cantor, na verdade. Escolho as músicas de que gosto mais, dentro da linha teatral, se vai tocar as pessoas ou não, aquelas em que posso “tirar” mais da minha voz, em que posso fazer um trabalho vocal melhor. E também coisas como Elis (Regina) que o público pede, mas eu sempre toco coisas novas, gosto de recriar canções.

Ser um ícone dos anos 80 já te incomodou de alguma forma?
Não me considero um ícone dos anos 80. Ícones são aquelas pessoas que são imitadas, como o Magal, a Gretchen. Nunca fui imitado, mas fico feliz quando as pessoas dizem isso. Mas às vezes acho que as pessoas acreditam que parei no tempo e que fiquei só no “Meu Mel”, que depois não houve mais vida na minha vida. Isso me incomoda um pouco. Mas já incomodou mais. É engraçado porque nos anos 80 a imprensa dizia que não havia nada que prestasse. Ainda assim, eu fiquei conhecido num país continental como o Brasil e fico muito feliz com isso. Na verdade, eu acho que uma parte da mídia não gostava muito da democracia musical que acontecia naquele tempo. Queriam promover só o rock nacional ou o que achavam que era melhor. Mas eu fazia e faço um trabalho romântico pop e ainda assim toquei bastante. As músicas ditas populares conseguiram tocar nas FMs, mesmo sem o apoio de uma parte da imprensa.

Como você encara o revival da década retrasada?

Acho legal o interesse. Na década de 80, muitos diziam que nada restaria da época quando ela passasse, mas ficou provado o contrário. Eu queria saber como vai ser com as estrelas dos anos 90 daqui dezoito ou mesmo dez anos. Até porque, há muito tempo não surge nada de novo na música. Tudo se copia, mas não tem mais nada pra ser copiado. Por pior que fosse, a década de 80 foi de experimentação, coisa que foi deturpada por uma parte da imprensa e rotulada como cafona, brega. Mas pelo menos havia mais alternativas do que há hoje.

Elis Regina aparece sempre como sua maior influência. Além dela, quem mais tem marcas em seu trabalho?
Ney Matogrosso, com certeza. Se ele não existisse, eu não existiria assim como não haveria Biafra, Edson Cordeiro, esse povo que canta como contra-tenor. Ainda no Ceará, gostava muito de um cantor chamado Milton Carlos, que parecia muito com o Ney. Também gosto da Clara Nunes, Fafá de Belém, perceba, muitas mulheres me inspiram. Claro que Milton Nascimento e Caetano também me influenciam, mas elas e Ney são os que influenciam mais.

Em seu site você coloca seu trabalho como “romântico ingênuo, injustamente intitulado de romântico brega”. Qual a sua definição para brega?
Não sei. Brega pra mim é sinônimo de cafona. O que é cafona hoje em dia? Todo mundo ouve o que quer, se veste como quer, não dá mais pra saber com certeza. Sei definir ruim, errado, certo, mas nunca pensei sobre o que é ser brega. Boa pergunta! Nos anos 80 os críticos torciam o nariz pra mim porque me comparavam com a Elis. Depois, quando eu comecei a cantar outras coisas, era porque fiquei popular demais. Era o tipo “não ouvi e não gostei”. Tudo bem, ainda não fiz o disco da minha vida. Mas ninguém levou em consideração que eu era quase uma criança, recém chegada do Ceará. “Meu Mel”, por exemplo, foi uma música que sobrou de um disco que gravei com o Roupa Nova. Aí, tinha que colocar mais uma música no meu disco e colocamos essa. Estourou. É até um disco que eu estou de Paquito na capa, uma coisa horrorosa. Eu mesmo fiz o figurino, mas odeio a capa desse disco.

Seu trabalho como intérprete é bastante conhecido. Você também compõe?
Não. Não tenho vocação para compor ou tocar. Não toco nada! Sou autodidata, passo o que quero pros meus músicos, mas não é nada fácil. Já até recebi proposta para assinar canções dos outros, mas não aceitei, não acho certo.

De todas as músicas que já gravou, qual a que mais gosta de cantar?
Gosto muito de uma gravação que fiz de “Super-Homem”, no meu disco “Anjo Azul”. Aliás, esse disco tem coisas muito legais. Do meu primeiro LP tem “Ser Estranho”, que foi uma música que o Jessé gravou primeiro. Ah, e tudo o que canto no show eu gosto, né? Não tem nenhuma música específica. E evito até cantar no chuveiro, senão não tenho descanso.

Com Gabriela Alves você protagonizou “Bregópera”, mas já havia feito trabalhos para teatro antes. O que aproveita do cantor no ator e vice-versa?
Na verdade a peça com a Gabriela volta para outro lugar, ainda não definido, em São Paulo, logo, logo, reformulada e com outro nome. Eu comecei no teatro, acho que muita gente não sabe, lá no Ceará. Mas aí o cantor tomou conta do ator. Claro que eu uso muito do ator para o intérprete, né? No modo de cantar, no gestual, na impostação de voz.

Como é cantar na Trash 80’s?
É uma brincadeira! As pessoas estão lá para divertir, cultuar um determinado tipo de música, de comportamento. Por mim, eu faria uma coisa até mais ambiciosa, mas sei que o espaço não permite, e tem a coisa de ser dentro de uma discoteca e as pessoas estarem mais interessadas em ver o artista de perto. Mas se pudesse, me apresentava com banda e tudo. Sempre canto meus dois maiores hits e outros sucessos dos anos 80. É especial. A única coisa que me deixa com vergonha é ter que passar no meio do público. Não é medo, não, é timidez mesmo. Vai entender, né? Mas depois que estou no palco, que vejo as luzes, tudo se transforma.

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