Por Roberta Ribeiro para Trash 80´s

Até meados da década de 80, os programas humorísticos televisivos no Brasil seguiam um padrão comum. Eram formados por esquetes curtos e alguns quadros fixos. Bons exemplos são “Chico City” e “Viva o Gordo”, de Chico Anysio e Jô Soares, respectivamente.

Isso começou a mudar quando, em junho de 1988, entrou no ar a “TV Pirata”. Dirigido por Guel Arraes, o programa contava com um elenco estrelado e com roteiristas como Mauro Rasi e os então desconhecidos membros do Casseta & Planeta. A intenção era, a princípio, metalingüística: fazer uma crítica bem-humorada à televisão no país e, coisa inédita, à própria emissora que levava a atração ao ar, a Rede Globo.

A originalidade começava pelo nome, roubado dos próprios ladrões da TV daquela época. Explica-se: nos anos 80, era comum para o telespectador estar sintonizado num canal e, em pleno horário nobre, ter seu aparelho “invadido” por emissoras ilegais que usavam as ondas das emissoras devidamente registradas para chamar o público. Pirateamento de transmissão, que a Globo cansou de ver acontecer, às vezes em pleno “Jornal Nacional”. Situação revertida a favor da emissora quando a mesma utilizou o nome “TV Pirata” para um programa de humor.

Um exemplo de paródia muito lembrada por quem assistiu ao humorístico foi “Fogo no Rabo”, que satirizava a novela “Roda de Fogo”. O diferencial do quadro era exatamente “pegar no pé” de outro sucesso da grade da emissora carioca, que sempre se orgulhou de produzir folhetins de qualidade e que, com “TV Pirata”, via todos os erros e canastrices de sua principal atração serem satirizados.

A realidade do país também virou alvo do programa, que fazia rir e, ao mesmo tempo, refletir. Nesse sentido, o melhor exemplo talvez seja o quadro “As Presidiárias”. O cotidiano de uma carceragem hilária, onde as presas discutiam as condições em que viviam e onde Tonhão, personagem lésbica de Claudia Raia, aprontava das suas, levava o público a pensar tanto na sexualidade dos presos como na violência que ocorria nos presídios. Mais ainda: surgia a reflexão a respeito da possibilidade de alguém melhorar naquele ambiente… Tudo isso com muitas risadas e leveza.

No universo televisivo, onde a máxima do “nada se cria, tudo se copia” impera, a “TV Pirata” veio ser exceção à regra. Com tiradas inteligentes, que faziam rir de assuntos sérios, divertindo o público com as falhas de uma sociedade de que todos faziam parte, a série semanal conseguiu fazer pensar muito mais que muitas outras atrações não-cômicas que pretendiam provocar a reflexão. Proeza de uma equipe que, em sua maioria, ainda hoje utiliza-se da fórmula ali aplicada para conseguir o mesmo efeito.

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