Arquivo do mês: janeiro 2005

Por Roberta Ribeiro para Trash 80´s

Quem disse que machos não podem gostar de novelas? Num país em que grande parte da população tem em sua memória os rocambolescos roteiros das 18h, das 19h e das 21h, é normal encontrar aqui e ali homens noveleiros. Até porque alguns dos personagens mais marcantes dos folhetins foram “cabras” que muito telespectador adoraria imitar.

Em 1984, entra no ar a novela “Rabo de Saia”. O personagem principal, Seu Quequé, vivido por Ney Latorraca, é um caixeiro-viajante trígamo. Isso mesmo! Casado com três mulheres, uma em cada cidade onde costuma parar em suas viagens. Ama as três e é amado por elas. Até que as esposas descobrem as outras famílias dele! O desfecho da história? Quequé consegue ludibriar as três e continuar sua vida com três famílias. Nem Gilberto Freyre, famoso antropólogo que tinha permissão da esposa para traí-la, faria melhor!

Um ano depois, em Roque Santeiro, uma das novelas-símbolo da década ao lado de “Vale Tudo”, Sinhozinho Malta (numa interpretação memorável de Lima Duarte) desbancou o galã Roque Santeiro, vivido por José Wilker, e terminou a novela com a disputada viúva Porcina (Regina Duarte). Isso depois de ela ter ficado indecisa entre os dois e ainda ter tido um caso com o personagem de Fábio Júnior! Ganhou o machão, aquele que só de olhar impunha medo. Mas que, no fundo, não conseguiria viver sem o amor da nada nobre dama.

Renato Villar era o personagem de Tarcísio Meira em “Roda de Fogo”, que foi ao ar em 1986. Típico vilão que vira mocinho ao descobrir que sua vida está por um fio, Renato se apaixonou pela juíza que ia julgar seus crimes, Lúcia Brandão, vivida por Bruna Lombardi. A atriz era considerada um ícone de beleza na época, por isso não causava espanto que, na ficção, conseguisse até transformar um mau-caráter em candidato a santo.

Outro machão grosseirão e que acabou levando a melhor foi Tony Carrado (Nuno Leal Maia), em “Mandala”, de 1987. Foi ele quem curou o coração partido da “Deusa” Jocasta (Vera Fischer) quando esta descobriu que o homem que amava era seu próprio filho, Édipo (Felipe Camargo). Carrado era mais velho e bem menos atraente que Édipo. Mas venceu pela insistência e levou o “peixão” pra casa. Já na vida real, Felipe Camargo deixou de lado a diferença de idade entre ele e Vera e casou com sua mãe ficcional.

Agora, o último personagem macho de dar inveja em qualquer marmanjo não esteve em novelas da Rede Globo. Em 1989, a Manchete levou ao ar “Kananga do Japão”, novela passada na década de 30. Alex, personagem de Raul Gazolla, fazia Dora (Christiane Torloni) babar, as espectadoras suspirarem e os homens quererem aprender a dançar como forma de seduzir melhor e exporem mais sua sensibilidade. Isso sem deixarem de ser másculos!

Os machos das novelas inspiraram, sim, muitos machos noveleiros durante a década de 80. Mocinhos ou vilões, alavancaram audiências e conquistaram multidões. E alguém ainda duvida que novela também seja coisa de homem?

Por Roberta Ribeiro para Trash 80´s

Provavelmente as mulheres nunca serão capazes de entender o fascínio que esportes violentos como o boxe causam nos homens. A graça de ver dois sujeitos se surrando sem piedade é algo que não é compreensível para o sexo “frágil” e de estômago sensível. Mas não dá pra ignorar o quanto o ringue atraía público para a frente da televisão, no Brasil da década de 80.

Um dos motivos mais fortes para tanta popularidade residia no fato de o país ter visto Éder Jofre sagrar-se campeão ainda na década de 60 e, logo no começo dos 80, surgir aquele que seria um dos mais representativos boxeadores do país em todos os tempos: Adilson Rodrigues, o Maguila.

Sergipano de Aracaju, o pugilista veio de uma família muito pobre e seu pai já mostrava uma característica que também o filho carregaria: ser um atrapalhado. Tanto que, ao invés de registrar cada um dos vinte filhos quando estes nasciam, esperava juntar uma “boa quantidade” e só então ia ao cartório. Claro que ele se confundia com as datas e os filhos: Adilson acabou por ser registrado como se tivesse nascido em junho de 1958, quando nasceu mesmo em julho. Ainda jovem, iniciou-se em outra profissão: a de pedreiro. Mas não tinha jeito, seu lugar era mesmo em cima dos ringues.

Logo no início da década de 80, a TV Bandeirantes, por meio de seu diretor de esportes, Luciano do Valle, decidiu investir pesado para transformar o boxe em espetáculo. Apesar de já ter um público interessado, só o que se viam eram lutadores de categorias como peso pena e peso galo. Na categoria mais famosa, havia pouquíssimos representantes brasileiros. Maguila era um deles.

Com 1.86 m, cem quilos, uma direita demolidora e muita valentia, não era de surpreender que rapidamente ele se tornasse um ídolo do esporte no Brasil. E ele correspondeu! Afinal, chegou a ser o segundo no ranking da Associação Mundial de Boxe e lutou com grandes nomes da época, menos um: o temido Mike Tyson. Tudo porque, em lutas que poderiam garantir a disputa posterior com Tyson, Maguila acabou por perder. Foi derrotado por Evander Holyfield e por George Foreman. Depois disso, a mídia o deixou de lado (a essa altura, a Rede Globo havia comprado os direitos de transmissão das lutas), e ele foi obrigado a dar outro rumo à vida.

Mesmo não sendo considerado o melhor lutador brasileiro de todos os tempos (título que pertence, merecidamente, a Eder Jofre), Maguila é uma marco do pugilismo no país. E um exemplo de brasileiro que optou por mudar sua vida, indo atrás do sonho de ser boxeador. Mais que adotar o esporte como profissão, Adilson Maguila Rodrigues escolheu combater a pobreza com os punhos cerrados.

Literalmente.

Por Roberta Ribeiro para Trash 80´s

“E ontem, o que eu encontrei me deixou mais triste / Um pedacinho dela que existe / Um fio de cabelo no meu paletó…” ou “Ainda ontem chorei de saudade / Relendo a carta, sentindo o perfume…”. Quem nunca ouviu uma dessas pérolas que atire a primeira viola! E não adianta negar: por mais que não se goste, é praticamente impossível não decorar pelo menos o refrão logo na primeira vez que se ouve. E até mesmo a Trash 80’s vez por outra se rende às letras melosas e ao “erre” dito caipira, tão comum no interior do Brasil.

Todo fã de sertanejo sabe: o que mostram nas novelas por aí nada tem a ver com as canções que realmente são trilha sonora nos rincões brasileiros. Para começar, muito do que as pessoas ouvem é uma mistura de música pop com o country norte-americano, quer dizer, música que já sofreu influência do exterior, além de ter um pé na cidade. O ultra-romantismo, que muitos chamam de dor de corno, é outro diferencial. Logicamente que no sertanejo “de raiz” também há canções amorosas. Mas a terra, o interior e seus costumes têm seu espaço garantido em primeiro lugar.

Daí, percebe-se que é possível separar “sertanejo” de “caipira de raiz”. Mas onde entram os anos 80 nisso? Obviamente a música sertaneja tem toda uma história anterior à “década perdida”, mas nos anos 80 o “cancioneiro violado” atingiu níveis de popularidade nunca antes vistos! Nem que fosse só para atirar pedras, a crítica foi obrigada a prestar atenção pela primeira vez e trouxe à tona duplas como Milionário e José Rico, Pena Branca e Xavantinho e até mesmo Chitãozinho e Xororó, que pouca gente sabe, mas tem discos lançados desde a década de 70.

Boa ou ruim? Não há como julgar. A música caipira deve ser respeitada por ser uma manifestação cultural realmente brasileira, cuja origem está longe dos grandes centros e megalópoles do país. É difícil pensar num repertório brasileiro sem mencionar a importância deste estilo.

Por Roberta Ribeiro para Trash 80´s

Até meados da década de 80, os programas humorísticos televisivos no Brasil seguiam um padrão comum. Eram formados por esquetes curtos e alguns quadros fixos. Bons exemplos são “Chico City” e “Viva o Gordo”, de Chico Anysio e Jô Soares, respectivamente.

Isso começou a mudar quando, em junho de 1988, entrou no ar a “TV Pirata”. Dirigido por Guel Arraes, o programa contava com um elenco estrelado e com roteiristas como Mauro Rasi e os então desconhecidos membros do Casseta & Planeta. A intenção era, a princípio, metalingüística: fazer uma crítica bem-humorada à televisão no país e, coisa inédita, à própria emissora que levava a atração ao ar, a Rede Globo.

A originalidade começava pelo nome, roubado dos próprios ladrões da TV daquela época. Explica-se: nos anos 80, era comum para o telespectador estar sintonizado num canal e, em pleno horário nobre, ter seu aparelho “invadido” por emissoras ilegais que usavam as ondas das emissoras devidamente registradas para chamar o público. Pirateamento de transmissão, que a Globo cansou de ver acontecer, às vezes em pleno “Jornal Nacional”. Situação revertida a favor da emissora quando a mesma utilizou o nome “TV Pirata” para um programa de humor.

Um exemplo de paródia muito lembrada por quem assistiu ao humorístico foi “Fogo no Rabo”, que satirizava a novela “Roda de Fogo”. O diferencial do quadro era exatamente “pegar no pé” de outro sucesso da grade da emissora carioca, que sempre se orgulhou de produzir folhetins de qualidade e que, com “TV Pirata”, via todos os erros e canastrices de sua principal atração serem satirizados.

A realidade do país também virou alvo do programa, que fazia rir e, ao mesmo tempo, refletir. Nesse sentido, o melhor exemplo talvez seja o quadro “As Presidiárias”. O cotidiano de uma carceragem hilária, onde as presas discutiam as condições em que viviam e onde Tonhão, personagem lésbica de Claudia Raia, aprontava das suas, levava o público a pensar tanto na sexualidade dos presos como na violência que ocorria nos presídios. Mais ainda: surgia a reflexão a respeito da possibilidade de alguém melhorar naquele ambiente… Tudo isso com muitas risadas e leveza.

No universo televisivo, onde a máxima do “nada se cria, tudo se copia” impera, a “TV Pirata” veio ser exceção à regra. Com tiradas inteligentes, que faziam rir de assuntos sérios, divertindo o público com as falhas de uma sociedade de que todos faziam parte, a série semanal conseguiu fazer pensar muito mais que muitas outras atrações não-cômicas que pretendiam provocar a reflexão. Proeza de uma equipe que, em sua maioria, ainda hoje utiliza-se da fórmula ali aplicada para conseguir o mesmo efeito.

Por Roberta Ribeiro para Trash 80´s

Pra falar de Rê Bordosa, é bom falar de Angeli. E vice-versa. O cartunista que deu vida à personagem vê na profissão uma forma de diálogo com o público. Por isso mesmo, prefere falar sobre sexo, drogas e rock’n’roll do que sobre assuntos que podem ser considerados polêmicos, mas que não o interessam particularmente.

Rê, por exemplo, é uma mulher paulistana dos anos 80, período em que foi criada. Aquela que bebia demais, fazia as piores misturas, usava as drogas mais pesadas, fazia sexo casual sempre e depois sentia culpa e se curava, de ressaca, numa banheira. Aquela que até queria levar uma vida “normal”, mas que não resistia às tentações junkies que apareciam durante o percurso.

Em entrevista para a revista eletrônica Top Magazine, Angeli conta dois fatos curiosos que o ajudaram a compor o personagem. Primeiro, ao entrar num banheiro masculino às quatro da manhã, dar de cara com uma moça usando o mictório e ficar pasmo, afirma tê-la ouvido dizer que, àquela hora da madrugada, era capaz de coisas que até Deus duvidava. Depois, em um bar com o amigo Mario Prata, assistiu duas moças e um rapaz se atracarem, enquanto o filho de uma delas dormia, tranqüilamente, em duas cadeiras. Rê Bordosa é a essência superlativa das duas cenas. Da mulher que tem atitude, mas tenta se explicar por isso.

Com tiras que contavam uma história completa por dia, Rê foi o personagem que elevou Angeli ao Olimpo dos cartunistas brasileiros. Se Chiclete com Banana, Wood & Stock e Bob Cuspe, entre tantas outras criações do cartunista, fizeram sucesso, Rê Bordosa foi aquela que o tornou conhecido por todo o país. Os homens gostam dela por não se preocupar tanto com sua feminilidade. E as mulheres a amam por fazer questionamentos que, ainda hoje, toda mulher faz um dia, mas não em público!

Aliás, tudo o que se refere à Rê deveria ser dito no passado, já que ela morreu de tédio há um bom tempo. Ainda assim, é tão popular que, vez ou outra, Angeli a faz aparecer (como lembrança ou fantasma). No fundo, a personagem que retrata tão bem uma geração, tornou-se um mito que nem a morte, imposta por seu criador, conseguiu apagar.