Por Denis Klein.

Eis a segunda parte da prova definitiva de que novelas são uma das coisas mais trash que existem.

Guerra dos Sexos (1983)

Charlote (Fernanda Montenegro) e Otávio (Paulo Autran) são primos que se odeiam e, por isso, não nutriram qualquer tipo de relacionamento durante a vida. No entanto, com a morte de um tio, ambos são obrigados a se reencontrarem. Acontece então de Charlote e Otávio serem os únicos herdeiros deste tio que, é claro, é milionário. No testamento o tio impõe como condição que seus herdeiros compartilhem juntos de sua fortuna, forçando os primos a aprenderem a conviver um com o outro. Não pretendo falar muito mal dessa novela porque não se fala mal de um elenco com Paulo Autran e Fernanda Montenegro. Além disso é interessantíssimo ver uma discussão sobre a diferença dos sexos (colocando mulheres em pé de equivalência com homens) logo no começo dos anos 80. Alguém mais aqui lembra daquele quadro do tio de Charlô e Bimbo (como também eram conhecidos os primos) que mudava a expressão do rosto de acordo com a situação? É pra lá de clássica na TV brasileira a cena de Charlote e Otávio fazendo uma certa guerra de comida na mesa do café da manhã.

Ah tá: Como os primos não chegavam a um acordo e também não aprendiam a “se amar”, fizeram uma aposta de que se Charlote conseguisse elevar os lucros da rede de lojas herdada, seu primo abriria mão de sua parte na herança. Se não conseguisse, ela mesma abriria mão de sua própria parte. Porque pessoas adultas decidem o destino de heranças milionárias dessa forma mesmo.

Clichê: já repararam que tudo começa quando um tio muito muito muito rico morre e toda a família, inclusive aquele primo que foi ser jesuíta na Malásia, se reencontra por causa disso?

Mandala (1987)

Imaginem uma tragédia grega. O drama de uma mulher que se apaixona pelo próprio filho. Um pouco de cultura não faz mal a ninguém, certo? Agora imagina essa tragédia grega acontecendo no Rio de Janeiro com seus morros e balas perdidas. Pra apimentar, coloque um bicheiro chamado Tony Carrado (Nuno Leal Maia) apaixonado pela protagonista da história. É dessa forma que um pouquinho de cultura pode fazer mal sim. Essa novela de Dias Gomes (que é praticamente um Sófocles) tentou de forma medonha, mas nem por isso pouco polêmica, tratar do incesto, mostrando a atração entre Jocasta (Vera Fischer) por Édipo (Felipe Camargo), que é na verdade seu filho raptado na maternidade pelo pai Laio (Perry Sales) com a ajuda do místico Argemiro (Marco Antônio Pamio). Se hoje em dia o assunto já não é muito digestivo, imaginem em 87! Provavelmente as melhores heranças dessa novela ainda foram o romance transposto para a vida real de Felipe Camargo e Vera Fischer, rendendo a capa de várias revistas medíocres, e o sucesso de “Amor e o Poder”, da nossa musa, a cantora Rosana.

Ah tá: Porque as chances de, no Rio de Janeiro, uma cidade que como sabemos é pequena e com poucos habitantes, a mãe reencontrar o filho roubado na maternidade e se apaixonar por ele, assim, bem por acaso, é muito grande mesmo.

Clichê: Em novelas, toda vez que aparece um romance proibido e/ou polêmico (Jocasta e Édipo), o destino se encarrega de botar um laranja apaixonado por um dos envolvidos (Tony Carrado) para garantir umas cenas tórridas e menos polêmicas para o público.

Top Model (1989)

Uma coisa entre Armação Ilimitada e Malhação, mas com uma trama de inveja e raiva entre irmãos e história de modelos maravilhosas é o que caracterizava essa novela. Os irmãos Gaspar (Nuno Leal Maia), um surfista solteirão, alegre e pai de cinco crianças (cada uma com uma mulher diferente), e Alex (Cecil Thiré), um homem sério, vingativo e amargo, são donos da confecção Covery. A confecção contrata a modelo Duda (Malu Mader) para ser a garota propaganda da confecção. Alex se apaixona por Duda, que por sua vez é apaixonada por Lucas (Taumaturgo Ferreira), um cara com ar rebelde que, no melhor estilo Esquadrão Classe A, foge da polícia por um crime que não cometeu. De quebra, ele também está no Rio de Janeiro porque procura por seu pai. As duas grandes lembranças dessa novela são: 1 – A Malu Mader maravilhosa, 2 – os nomes dos filhos do Gaspar (nomes de astros como Jane Fonda e Ringo Starr) e 3 – a música Oceano do Djavan que tocava em todas as esquinas que anos mais tarde tocariam a Dança da Garrafa ou o Bonde do Tigrão.

Ah tá: Bem, Lucas chegou ao Rio de Janeiro fugido da polícia e procurando por seu pai. Conhece a Duda e se apaixona por ela que trabalha justamente para… bem, não preciso dizer mais como o acaso se encarregou de apresentá-lo ao seu pai.

Clichê: Alex tentando acabar com a vida de Lucas na tentativa de tirá-lo do caminho na conquista por Duda. Preciso dizer que, no fim, Lucas provou sua inocência e amou Duda para sempre?

Vale Tudo (1988)

“Quem matou Odete Roitman?” O poder que essa pergunta exerceu sobre o país é, na minha opinião, a maior prova do poder hipnótico que uma novela pode ter! A trama conta a história de Raquel (Regina Duarte) e Maria de Fátima (Glória Pires), mãe e filha, que saem de Foz do Iguaçu e vão tentar a vida separadamente no Rio de Janeiro. A primeira vendendo sanduíche na praia, a segunda tentando aplicar o golpe do baú na pitoresca família Roitman, mais exatamente em Afonso Roitman (Cássio Gabus Mendes). Uma coisa no estilo “o bem contra o mal”. A família Roitman era um caso à parte: todos eram desonestos, corruptos e ladrões. Odete Roitman (Beatriz Segall) era tão do mal que, na ocasião de seu assassinato, o elenco inteiro da novela (e se brincar até o elenco de outras novelas) era suspeito. Quem era Roitman e não era assim, sofria de algum tipo de estupidez congênita. A grande reviravolta da trama é quando Raquel encontra uma mala perdida por Marco Aurélio (Reginaldo Faria) com 800 mil dólares. Ela decide não ficar com a mala, ainda Ivan (Antônio Fagundes), seu grande amor, a incentive a ficar com ela. Nesse meio tempo Maria de Fátima rouba a mala para si. Raquel acredita que foi Ivan quem robou a mala e eles acabam o relacionamento. Ivan se casa com Heleninha Roitman (Renata Sorrah), a loira mais apropriada para cartazes de propaganda de cerveja da época. Quem não lembra de Leila (Cássia Kiss) dando o tiro que matou Odete ou de Marco Aurélio mostrando uma banana para o Brasil enquanto fugia, certamente passou o ano com a cabeça enfiada dentro da privada e não viu o que aconteceu no mundo durante a exibição desta novela.

Ah tá: Porque mais fácil de acreditar que algum idiota perderia uma mala com 800 mil dólares, é acreditar que alguém que achasse uma mala dessas pensaria em procurar o dono.

Clichê: Raquel decobre a inocência de Ivan e os dois vivem felizes para sempre, felizes para sempre, porque o bem sempre vence o mal, porque dinheiro não é tudo, essas coisas…

Tieta (1989)

Baseado no romance homônimo de Jorge Amado. Tieta (inicialmente Claudia Ohana, mais tarde Betty Faria) é expulsa ainda jovem de sua cidade, Santana do Agreste, depois que seu pai Zé Esteves (Sebastião Vasconcelos) pegou ela literalmente com a boca na botija. Anos depois ela retorna à sua cidade bem vestida e com um carrão bacana e é recebida na cidade como uma heroína, já que teve sucesso enquanto esteve sumida. Sua riqueza faz crescer os olhos de seu pai e de sua invejosa irmã Perpétua (Joana Fomm), que tentam arrancar tanto dinheiro quanto conseguem de Tieta. Do outro lado, Tieta se mostra uma pessoa generosa, ajuda a reconstruir a igreja da cidade e faz favores a todos. Mal sabem eles que ela só tem riqueza e poder porque desde que ela foi expulsa de Santana do agreste, nunca tirou a boca da tal botija. Destaque para o conteúdo da caixa secreta de Perpétua: uma “lembrancinha” do general, seu marido falecido.

Ah tá: então, falando da “lembrancinha” do general, alguém pode me explicar como é que aquilo se conservou por tanto tempo considerando que era guardado dentro de uma caixa de sapatos?

Clichê: a atração e o romance proibido entre Tieta e Ricardo (Cássio Gabus Mendes), que além de seu sobrinho era seminarista. Todo romance proibido é estupidamente brega e previsível. Eu já falei disso quando escrevi sobre Mandala.

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