Por Trash 80´s
31/10/2003

Embora o Brasil o tenha conhecido com o estereótipo de malandro carioca, Leonardo Jaime é goiano. Ele teve uma infância difícil e passou a adolescência trabalhando como office boy, feirante, faxineiro e entregador de pacotes. Somente quando se mudou para o Rio de Janeiro as coisas começaram a acontecer em sua carreira. Entrou para o Grupo “João Penca e os Miquinhos Amestrados” e compôs várias músicas para outros artistas. Muita gente não sabe, mas o “Rock da Cachorra” que fez um sucesso absurdo na voz de Eduardo Duzek nos anos 80 é de autoria de Leo.

Leo Jaime fez parte da ótima safra de rock que assolava o país nos anos oitenta – seu visual rebelde “rockabilly”, com topetes e jaquetas de couro, foi uma das características que marcaram o cantor. Fez muito sucesso com letras debochadas e apimentadas durante um período em que o Brasil ainda vivia em grande censura. Várias foram as músicas que viraram hits na carreira do cantor, entre elas estão: “As Sete Vampiras”, “Sessão da Tarde”, “Gatinha Manhosa”, “Conquistador Barato” e “Sônia”.
Com sete álbuns gravados, Leo vai muito além da carreira de cantor, é um artista de várias facetas: ator, autor, colunista, blogueiro, comentarista esportivo. O que ele já fez e tudo o que ele ainda prepara daqui para frente está na entrevista abaixo.

1- Como você foi parar no Rio de Janeiro? Já foi uma ida relacionada a tentativa de início na carreira artística ou foi apenas destino?
Fui morar no Rio com quase 17 anos e já havia iniciado minha carreira artística. Eu estava em Brasília no final da excursão de um espetáculo que era os Saltimbancos, e fui visitar uma namorada que fazia parte de um grupo de dança da companhia do Klaus Viana. De repente o ator e bailarino que fazia o papel principal foi deportado para a Argentina três dias antes da estréia. Eu que vivia assistindo aos ensaios e era do ramo, embora não fosse exatamente um dançarino, fiquei no lugar dele Para a minha surpresa foi um grande sucesso. Com isso fui convidado a trabalhar na companhia e fiquei lá por um tempo.

2 – Sua participação no grupo “João Penca e Os Miquinhos Amestrados” foi importante para a sua carreira? Como foi a decisão para seguir em carreira solo?
Na verdade eu não decidi sair do grupo, eles é que decidiram sair de mim. Na hora de assinar o contrato com a gravadora todos eles começaram a dizer que não tinham certeza se queria ter realmente uma carreira profissional e eu precisava muito trabalhar, afinal eu não tinha uma família que me bancasse, nenhuma fonte de renda, nem apoio de ninguém. Acabou que eles toparam, um mês depois surgiu o convite de uma outra gravadora que nos convidaram para gravar um disco juntos. Eu liguei pra eles e perguntei se eles queriam e me responderam que se eu produzisse tudo eles gravavam. Acabamos fazendo mas eles não queriam ter uma carreira séria, e eu como não tinha condições de recusar trabalho, aliás como não tenho até hoje, acabei seguindo sozinho.

3 – Como era cantar e criar em um período em que o país ainda sofria uma forte censura? E a história do período em que você foi preso devido a censura ao LP “Phodas C”, isso foi verdade?
O disco foi lacrado e proibido quando saiu da gravadora mas eu não cheguei a ser preso por causa da censura. A história da minha prisão foi em um dia em que peguei carona com dois amigos que estavam indo a praia em um jipe e eles resolveram fumar um baseado no caminho. Pra piorar a situação a menina que estava dirigindo inventa de fazer um retorno na porta de um motel, bem na hora passa um camburão. A situação era a seguinte: dois homens e uma mulher em um jipe azul turquesa saindo de um motel, o cara com um baseado enorme na boca e o camburão passando. Eu que nem fumava e não fumo até hoje estava desesperado pedindo para que jogassem o baseado fora. Claro que não me deram ouvidos e o camburão cercou a gente e colocou todo mundo dentro da caçamba. Ficamos umas duas horas no camburão com um calor infernal até chegar na delegacia. Fiquei em uma cela com uns vinte caras e eu de sunga, deu pra sacar a situação né? Acabei passando mal por causa do calor e da cena na qual em me encontrava, daí passei um cheque pré-datado para os policiais e me soltaram. O interessante é que todo mundo pensa que fui preso por causa da censura.

4 – Você fez uma canção em homenagem a Solange Hernandez, diretora do Serviço de Censura e Diversões Públicas. “So Lonely”, do Police virou “Solange”, como foi? Ela soube disso na época?
Era meio que uma censura pessoal, uma coisa de “você é foco subversivo e a gente vai proibir tudo o que você fizer”. Eu perguntava por que e ela dizia: “Porque é sua, foi você quem escreveu. A música Solange foi feita por mim e pelo Leoni exatamente por isso. Eu estava no meu quarto tocando umas músicas do Police e gritei pra ele, que estava no outro quarto, “Leoni, você conhece essa So Lonely ?”. Ele ouviu mal e disse, Que? Solange?”. Aí, eu disse “opa!!” e comecei a fazer a música na hora. Quando a música saiu ela adorou e ficava me ligando pra pedir cópias das fitas para mostrar para as amigas, mas nesta época a censura já estava no final. Ela acabou ficando meio gaiata comigo quando viu que eu levava aquilo tudo na brincadeira sem me fazer de vítima porque a censura me perseguia.

5 – “Telma Eu Não Sou Gay!” também foi inspirada em uma outra música. É verdade que foi originada devido a uma má interpretação?
Os Miquinhos estavam ensaiando e na hora de ir embora tinha um fusca e oito pessoas. Eu fui dirigindo com o carro lotado e todo mundo falando ao mesmo tempo. De repente o Leandro começa a cantar “Tell me once again…” lá no meio daquela bagunça e eu entendi “Telma eu não sou gay”. Todo mundo começou a rir e paramos na praia para escrever a letra.

6 – Suas músicas no início da carreira eram descontraídas e debochadas, mas no disco “Vida Difícil” de 1986, você segue rumo a um pop mais romântico e melódico. Em “Sexo, Drops & Rock’n’Roll” de 1990, você retorna ao estilo que o consagrou no início da carreira, por que houve este retrocesso?
Eu tinha uma orientação de um poema que dizia sobre as condições de um pássaro, que ninguém sabe para onde ele está indo, que ele não tem a cor definida. Era algo como passar pela vida sem ficar acorrentado a convicções, definições, dogmas, se permitindo a mutação, a andar com o tempo e progredir sem aquela cobrança de coerência. Eu sempre fui múltiplo e me percebi um personagem que era um pouco mais limitador do que eu gostaria, já que o mercado só permitia que os artistas fossem uma coisa só. Eu nunca quis fazer cover de mim.

7 – Desde “Todo Amor” de 1995, você não gravou mais nenhum disco, embora continue fazendo shows. Por que a sucessão de gravação dos discos foi interrompida? Há planos para uma retomada?
Por causa da baixa vendagem do disco “Sexo, Drops & Rock’n’Roll” (60 mil cópias) a Warner me deixou na geladeira por 5 anos. Eu pedia pra eles me deixarem gravar e nada, pedia para que eles me liberassem pra sair da gravadora e também nada. Acabou que eu os processei e como parte do acordo foi gravado o disco “Todo Amor”. Eles gravaram contra a vontade e é claro, também não fizeram nenhum tipo de divulgação, queriam é que eu fosse para o inferno. Curiosamente as outras gravadoras ficaram impressionadas com o disco mas não quiseram me contratar depois. Só no começo do ano passado a Abril me contratou mas faliu antes que eu conseguisse gravar . Antes da Abril eu comecei a gravar um disco por um selo independente chamado Panela Music mas antes da conclusão eles fecharam e na tinham dinheiro pra acabar o disco. O público está sempre me cobrando e me perguntando quando vou lançar CD novo e eu sempre respondo que não gravo nada porque não me convidam, a indústria tem a maior bronca de mim. Eu não entendo porque eu continuo sendo um nome conhecido no Brasil inteiro, continuo com pessoas de 18 anos sabendo de cor as músicas que fizeram sucesso há vinte anos e que nunca foram regravadas. Acredito que eu não seja respeitado, acho isso pelo fato de estar tanto tempo sem gravar, mas sei que sou amado. Eu não faço idéia por que estou sem gravar, sempre fui muito responsável, nunca faltei a nenhum show nem compromisso, tenho uma ficha absolutamente limpa e sempre vendi bastante mas entre eu e o público existe a indústria.

8 – Você foi o responsável por apresentar Cazuza ao Barão Vermelho. Isso deve te deixar orgulhoso. Como foi esta história?
Não me deixa necessariamente orgulhoso porque isso é o que um amigo faz pelo outro. O Cazuza tinha uma cumplicidade muito grande comigo e o fato de fazer música era só um jeito que a gente tinha para viabilizar nosso trabalho já que a chance de ganhar dinheiro era mínima. Um dia me mostrou uma letra que ele escreveu e me pediu por favor para que eu nunca comentasse com ninguém, a música era a linda “Down em mim”. Esta foi a primeira música dele e simplesmente era perfeita. A partir disso eu fui tomado pelo desejo de impulsioná-lo a fazer música, ele não queria porque achava que as pessoas pensariam que ele só estava no meio porque o pai dele era dono de gravadora. Ele queria ser ator e sempre me chamava para cantar nos espetáculos que participava. Eventualmente cantava em bandas de algum amigo que estava precisando. O Cazuza era um chapa, lembro que ele ficava constrangido por ter amigos que passavam fome, como eu, e sempre me ajudava. Ele gritava: “Dá comida para este pobre!” e se trancava no quarto. Eu sabia que ele não queria era demonstrar o quanto estava triste pela situação – éramos tão próximos e ao mesmo tempo com este abismo enorme. Quando me chamaram para um ensaio do Barão Vermelho achei que não era pra mim, eles eram esporrentos demais e eu não. Na hora pensei no Cazuza e tive que implorar para que ele conversasse com o Frejat. Eles se deram bem na mesma hora e o depois de um mês já estavam com o disco pronto. Foi uma parceria instantânea.

9 – Além de atuar na TV, você também já esteve nos cinemas e no teatro. Como você avalia sua carreira de ator?
Eu tenho um currículo maior como ator até mesmo do que como músico. Fiz novelas, muitas mini-séries, cinema, hoje música pra mim virou algo que eu quase sempre faço apenas nas horas vagas. Eu gosto é de me sentir livre para fazer qualquer coisa.

10 – E a faceta do Léo Jaime autor/escritor/colunista/blogueiro?
Eu acho que a única coisa que eu sou é escritor. Não tenho talento musical especial, aprendi a cantar com muito sacrifício, nunca fui virtuoso em nada. A música pra mim foi apenas um jeito de escrever, é apenas um veiculo. Tenho fascínio pelas palavras e isso é tanto na música, no teatro ou quando estou em casa escrevendo para o meu blog, minha matéria prima é a palavra. Escrevo com muita facilidade, sou um escritor nato, assim como Cazuza e Renato Russo, claro que não vou dizer que eu seja tão talentoso quanto os dois, mas assim como eles eu sou um escritor, a música sempre foi uma forma de veicular nossos textos. Aprendi sozinho a ler e escrever com 5 anos e com oito anos escrevia esquetes de humor.

11- Você virou comentarista esportivo pelo SBT, como foi?
Eu adoro esportes, sempre pratiquei e também sempre gostei muito da literatura esportiva e da comunicação do rádio. Já tinha feito várias colaborações em cadernos de esportes de jornais como Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, O Globo, também fui convidado de alguns programas de rádio. Quando o SBT quis montar uma equipe de esportes eles queriam uma comunicação que abrangesse a família toda e não apenas a figura masculina, e eu fui convidado para participar. Eu sou jornalista e nem sempre a classe sabe disso e ficaram com uma perseguição enorme comigo. Fui muito mal recebido pela classe em geral que é muito burra, preconceituosa e mal informada. Além disso eu escrevi um artigo na copa para o Estadão criticando a crônica esportiva brasileira que nunca apóia a seleção por melhor que ela esteja – isso ajudou e eles já me receberam pegando no pé. Eu era considerado o bicão, algo como “o que este cantor está fazendo aí?”

12 – Oficce boy, cantor e compositor, ator de TV e teatro, autor de peça, colunista de jornal, comentarista esportivo, blogueiro… Pelo jeito você se adapta facilmente a qualquer realidade. De que maneira você se define?
Eu não sou uma pessoa muito capaz de me aprofundar em uma coisa. Tenho capacidade de me adaptar a qualquer coisa porque no fundo eu não tenho vaidade nenhuma. Acredito que eu seja talentoso mas é mais por esforço do que por vocação. Se me oferecerem um trabalho para trabalhar em uma empresa em vou correndo sem nenhum problema nem crises de ego – nunca me achei uma estrela.

13 – O que acha da Trash 80’s tocar em pleno ano de 2003 músicas que foram sucesso há pelo menos vinte anos?
Eu não sou muito de nostalgia, gosto da atualidade e de estar por dentro das coisas que estão acontecendo agora. Mas gosto muito de sair pra dançar músicas da época, acho músicas techno, por exemplo, a coisa mais chata do universo. Quando esse pessoal que curte este estilo tiver 30 anos não vai ter o que relembrar. Os anos oitenta foram muito mais divertidos do que é hoje, todos tinham muito bom humor – era a nossa linguagem universal. A alegria e o amor são as duas coisas mais subversivas e mais revolucionárias que existem, eu sou um cara que gosta de ver o circo pegando fogo e vou na contramão sempre – sempre em favor da alegria e do amor, isso talvez porque faço parte da safra da década de oitenta. A festa é muito divertida e como eu gosto de alegria a festa é ideal. Gosto de ambientes diversificados, sou popular.

14 – O que espera da festa?
Eu só quero que as pessoas se divirtam. Conheci a festa e a simpatia foi imediata, adorei essa idéia da Trash revisitar as coisas cafonas e todas as esquisitices da época.

15 – Quais são os planos de futuro? Que novidades vêm por aí?
Meu sonho é conseguir um trabalho estável e ganhar dinheiro. Adoraria ter carteira assinada, vale refeição, plano de saúde, sobretudo férias e décimo terceiro – acho o máximo isso de não fazer nada e o nega ainda te pagar.
Quanto aos projetos, sou um dos escritores do texto da peça Na medida do possível em cartaz no Teatro da Folha instalado no Shopping Pátio Higienópolis, todas as quartas e quintas feiras às 21h. É um monólogo idealizado pelo Eduardo Martini, o ator que a interpreta, que fala dos questionamentos masculinos em época em tudo é direcionado para mulheres. Vale a pena conferir, ninguém vai ficar sem se divertir.

Gostou? Veja também:
Comente no Facebook
Comente