Por Roberta Ribeiro para Trash 80’s

No começo da década de 80, três irmãos se uniram e formaram uma banda que, de cara, pretendia tocar rock n’ roll. Mas acabou fazendo sucesso mesmo com o hit new wave “Mamma Maria”. Era a Grafitte, que ainda hoje existe, mas agora como cover dos Beatles. Abaixo, um dos fundadores, Chico Donghia, conta mais sobre sua experiência na cena 80’s.

Trash: Quando e como surgiu a Grafitte?
Chico: A banda surgiu em 1980, antes do surgimento até mesmo da Blitz. Porém, só começou a ficar famosa e tocar nas rádios em 1983. A princípio, era uma banda de rock n’ roll e contava comigo, meus dois irmãos, Paulinho de Tarso (que tocava guitarra) e Tuca (que tocava baixo), e com a Sônia e a Cláudia, nos vocais de apoio. Eu tocava guitarra também e era vocalista. Nosso primeiro compacto saiu pela CBS, e tinha “Mamma Maria”, mas já tínhamos outra música tocando nas rádios do Rio de Janeiro, “Seu Lugar”.

Trash: De onde vem “Mamma Maria”?
Chico: “Mamma Maria” é uma versão de uma música italiana do grupo Ricchi & Poveri. Nem tínhamos muito interesse nessa música quando a gravamos. Éramos uma banda de rock e “Mamma Maria” se enquadrava no new wave. Mas a gravadora pediu e acabamos fazendo. Aliás, foi a CBS quem desviou a banda da idéia original, de fazer só rock n’ roll.

Trash: Quais foram o melhor e o pior lugar em que vocês tocaram?
Chico:Tocamos em muitos lugares legais, impossíveis de esquecer, como Mineirinho, na abertura do show do Roberto Carlos no Maracanãzinho, no Morumbi em São Paulo. Fora o Chacrinha, né? Fizemos Chacrinha 42 vezes e ganhamos seis discos de ouro dele. Até namorei duas chacretes! Também ganhamos três Globos de Ouro e tocamos em lugares que marcaram época, como Radar Tan Tan, em São Paulo e Metrópole, no Rio de Janeiro.

O pior lugar foi Nazaré das Farinhas, na Bahia. O show ia ser num campo de futebol da cidade, mas o cara que tinha que produzir o show sumiu com o dinheiro e não deixou sequer equipamentos para que a gente pudesse tocar. Aí, quando chegamos e subimos ao palco para avisar que não ia ter show, começou o maior tumulto e tivemos que inventar que uma das meninas estava grávida para não sermos linchados! Para evitar que a confusão continuasse, pegamos nossos próprios amplificadores, o pouco equipamento que tínhamos, sentamos todo mundo na grama do campo e fizemos o show da melhor forma possível.

Trash: Por que a banda acabou?
Chico: Na época em que lançamos nosso segundo disco, ele tinha vários sucessos como “Loura Gelada”, do RPM e “Siga-me”, do Vinícius Cantuária, que era a música de trabalho do disco. Estouramos nas rádios, mas a gravadora decidiu recolher nossa música das rádios para lançar outras bandas, como o próprio RPM e o Dr. Silvana.

Também já havíamos tido uma briga com um diretor da CBS que queria que gravássemos outra versão new wave, o que não queríamos. O fato da gravadora apenas pensar, na época, em fórmulas que dessem retorno financeiro rápido, sem se importar com a qualidade do que era feito, incomodava muito.

Aí, eu e o Paulinho recebemos uma proposta de cuidarmos de um estúdio grande, entre Vassouras e Valença, no Rio de Janeiro. Larguei tudo e fui viver na fazenda, cuidando do estúdio e andando de manga-larga. Quer melhor?!

Trash: A Grafitte voltou a existir depois da década de 80?
Chico: Sim, voltou sim. Já está na terceira formação. A segunda gravou um CD, mas ele acabou não saindo. A terceira é considerada a melhor banda cover dos Beatles que existe e já tocou até no Cavern Club, onde os Beatles mesmo tocavam. Mas da formação original, só eu continuo.

Trash: Das bandas dos anos 80, qual a sua preferida?
Chico: Ah, tinha várias. Kid Abelha, Rádio Táxi, Roupa Nova, Lobão. Aliás, no começo da década de 80, eu tive uma banda com o Lulu Santos e o Fernando Gama, do Rádio Táxi, que, junto com o Lobão, também formaram o Vímana.

Trash: O que mais te traz saudades dos 80’s?
Chico: Sinto saudades da boa qualidade da safra de músicos da época. Éramos todos muito amigos, andávamos juntos. Lobão, Lulu Santos, Cícero Pestana (Dr. Silvana), Metrô, Magazine, que era uma banda bárbara, todos se conheciam. E também não tinha bairrismo. Quem tocava no Rio, tocava em São Paulo sem problemas. E vice-versa. Tinha até um hotel em São Paulo, chamado Jandaia, ficava na rua Cásper Líbero, onde todo mundo acabava ficando e se encontrando. Tive ótimas conversas com o Renato Russo lá, por exemplo.

Trash: O que você faz hoje em dia?
Chico: Dirijo o UpTown, um estúdio aqui do Rio de Janeiro. E toco na recente formação do Grafitte, que faz cover dos Beatles.

Gostou? Veja também:
Comente no Facebook
Comente