Por Trash 80´s
22/04/2004

A década de 80 o berço de muitas bandas de rock, pop e new wave, gêneros que fugiam do comum na época que ainda remanescia de tempos difíceis da ditadura e censura absoluta. Mesmo assim, em contrapartida ao sistema autoritário em que ainda se encontrava o país, dezenas de grupos começaram a aparecer. A maioria deles fazia um estilo rebelde e subversivo, seja nas letras e ritmos das músicas ou na aparência dos artistas. Nem de longe queriam ser comparados ou associados ao que consideravam o “elitismo” da MPB que tomava conta do mercado. Os que estavam chegando não tinham uma causa a lutar, como foi o caso dos que passaram pelo terrível AI5 de 1968, que calou as vozes dos principais artistas e intelectuais da época e exilou e sumiu com dezenas. Pacifismo e mesmice também eram coisas com que não queriam tê-los associados. Então munidos do que muitos batizaram de “rebeldia sem causa”, inventando novas maneiras de se fazer música e inspirados em grupos estrangeiros, surgiram bandas que fabricavam um som nada convencional. Sintetizadores e baterias eletrônicas, aparelhos que eram a mais pura novidade por aqui, misturando com o som de guitarras barulhentas, trazendo ecos de rock com pitadas de muito pop.

A banda Metrô, que cedeu uma entrevista ao site da Trash 80’s, foi uma das boas novidades que apareceu na década. O público jovem sedento por coisas diferentes foi presenteado em 1984 por um grupo de nome esquisito, aliás, característica que se tornava uma coqueluche, (ou você achava “Os Paralamas do Sucesso” e “Kid Abelha e os Abóboras Selvagens” nomes comuns?) e que tinha um jeito de tocar somente visto antes em bandas estrangeiras. O grupo, ao contrário da maioria dos artistas que surgiu na década, possuía grandes influências do que era considerada a panelinha da música brasileira, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Gilberto – o que os rebeldes roqueiros da década queriam distância – e de músicos e bandas internacionais como Led Zeppelin, Pink Floyd, Blondie, Talking Heads, Television e Lou Reed. “Nós viemos ‘importados’ nossos pais eram franceses, mas tive influência brasileira mesmo com pais vindos de fora. Eles gostavam muito de música brasileira. Os franceses adoram a música brasileira, aliás. Eu ouvia demais em casa os vinis de João Gilberto, Rita Lee, Tom Jobim. Todos nós fomos muito influenciados por estas pessoas, era impossível não ouvir, eu nasci em 1963 e era tudo o que nossos pais tinham em casa, além das bandas francesas que também adoravam e me ensinaram a gostar. Não tínhamos motivos para ser do contra, entende? Estávamos a fim de fazer coisas que gostávamos sem se importar com o que era moda ou não” – explica Virginie.

A banda que foi gerada após a extinção da “Gota Suspensa” (que até chegou a gravar um LP em 1983) e trouxe Virginie (vocal), Alec (guitarra), Dany (bateria), Yann (teclado) e Zaviê (baixo) esbanjando de um estilo todo alternativo. Por que Metrô? “Nada demais, só uma abreviação de ‘metrópolis’, somente porque éramos e ainda somos mas com um pouco mais de moderação, metropolitanos demais” – brinca Dany. Antes de o nome ser definido, os integrantes cogitaram possibilidades de títulos como “Tokyo”, “Telex” e “Bamboo”.

Na década eles realmente faziam um gênero desconhecido, podemos até chamar de um “semi começo” da música eletrônica no país. E outra: todos os integrantes possuíam ascendência francesa. Virginie, que muitos pensam que realmente tenha vindo da França, nasceu no Brasil três meses após seus pais se mudarem de Paris para São Paulo, Yann e Zaviê vieram de lá adolescentes, Alec é brasileiro e Dany veio de Buenos Aires com um ano de idade. Conheceram-se no colégio Liceu Pasteur em São Paulo onde a língua falada era o francês das 8 horas da manhã às 16. “Na verdade a gente não sabia em que gênero se encaixava, fazíamos um som que gostávamos de fazer. Tínhamos consciência que os sintetizadores e a bateria eletrônica eram novidades mas eu e os meninos não tínhamos muita noção de que estávamos inovando. Estávamos apenas fazendo músicas de que gostávamos” – fala a vocalista.

Foi lançado o compacto “Beat Acelerado”. A música tema no lado A em versão bossa (bossa? Segundo o grupo sim – uma bossa moderna, mas ainda bossa) composta por Vicente França, Alec e Yann e “Sândalo de Dandi” no lado B. Estourou, virou febre, não havia ninguém que não soubesse as letras do começo ao fim. E sair do anonimato para o estrelato assim não foi tão simples garante Virginie: “Nossa! Quando a gente começou a ouvir nossas músicas nas rádios e começamos e ser chamados para participar de programas de auditório, nem acreditamos! A gente não sabia a proporção que aquela brincadeira de colegas de colégio iria tomar, nem de longe imaginávamos que um compacto faria tanto sucesso ainda mais com a concorrência acirrada que tinha na época para se lançar um LP”.

Com grandes diferenças de grupos como Barão Vermelho e Ultrage à Rigor que estavam fazendo bastaste alarde com seu rock escancarado e barulhento, a banda de Virginie que já vinha de algo considerado diferente para a época como o progressivo do Gota, usava suas técnicas e conquistava adeptos com um pop rock romântico. As músicas eram cheias de efeitos sonoros como o míssil e o barulho de alta tensão que surgiam quando citados nos versos da canção “Sândalo de Dandi” com o complemento de sons muito modernos há vinte anos: a bateria eletrônica e os sintetizadores, claro, a todo vapor. A maneira de cantar de Virginie também era um caso à parte. Tons meigos, delicados, voz afinadíssima que a levou até a ser comparada a Nara Leão, uma das mais respeitadas vozes da MPB: “é mesmo? Juro que isso eu não sabia! Eu sabia que as pessoas achavam que eu copiava a Rita Lee no jeito de cantar, mas nunca copiei, era e é meu jeito até hoje aos 41 anos de idade. Mas essa de ser comparada a Nara é novidade”.

O compacto fez tanto sucesso que o grupo pôde entrar em estúdio e gravar um LP já no ano seguinte. Em 1985 chega às lojas “Olhar”. Novamente “Sândalo de Dândi” e “Beat Acelerado” (só que desta vez intitulada de versão II) estavam entre as faixas. Várias das canções viraram hits nas rádios como “Olhar”, a faixa título, “Tudo Pode Mudar”, “Ti Ti Ti”, tema da novela global, “Johnny Love” do filme “Rock Estrela” em que o grupo fez até uma pequena participação e “Cenas Obscenas”. Fala a cantora: “orgulho? Não sei se posso chamar de orgulho o trabalho que fiz naquela época, mas fico muito feliz em ter feito, gosto, ainda ouço”.

Com o excesso de shows pelo país, cansaço, muita pressão entre outros fatores, acabam perdendo o chão e separam-se de Virginie em abril de 86, no auge. “Eu não saí do grupo, foi o grupo que saiu comigo. Eles resolveram fazer um estilo mais intelectual, com uma preocupação social como era o estilo de Cazuza e da Legião Urbana e resolveram que eu não me enquadrava no que queriam, foi assim”. E como ficou a relação depois de tudo isso? “Poxa, me senti perdida, fiquei muito triste mesmo, afinal de contas eles eram meus amigos desde os tempos do colégio. Nós estávamos juntos 24 horas por dia, ou fazendo shows ou fazendo algo fora do grupo. Foi muito difícil, nossa relação ficou abalada por tempos”. Sobre o assunto Dany comenta: “O Alec e o Yann queriam partir por outros rumos, eu relutei quanto a isso mas por fim acho que tudo seguiu conforme tinha que seguir. O disco que gravamos sem a Virginie nem era para ser considerado um trabalho do grupo Metrô, queríamos mudar de nome e nos chamar “Tristes Tigres”, mas como sempre, a gravadora tomou as rédeas e decidiu que seríamos Metrô mesmo sem Virginie. Eu e ela nunca ficamos distantes, o problema maior foi com o Alec e com o Yann mesmo”.

Em 1987, é lançado o LP a “Mão de Mão”. A banda voltaria com um novo vocalista, Pedro Parq, que já havia tocado no Mler Ife Dada, um dos melhores grupos do Underground português, mas não durou muito: “Não era o que o público esperava ouvir. A gente entrou com um som que em nada tinha a ver com os outros trabalhos. Era algo muito anticomercial, estávamos seguindo contra a maré” – fala Dany. Em 1988, foi a vez de Virginie voltar com uma nova banda, “Fruto Proibido” e um novo LP, “Crime Perfeito”. Teve apenas um hit: “Más Companhias” que fez parte da novela “Fera Radical”. Ela comenta: “O público não gostou muito. Só mesmo a música que foi pra novela é que fez sucesso. Tinham várias coisas boas, mas sem todo o apelo de uma banda de sucesso como era o Metrô não aconteceu divulgação nas rádios nem televisão, nada”.

Após a onda do Metrô, Virginie foi trabalhar no consulado francês em São Paulo onde conheceu o diplomata Jean Michel com quem está casada há dez anos e se mudou para Moçambique. Cuida de suas duas filhas que têm 6 e 7 anos e faz trabalhos sociais e voluntários em Maput. Dany Roland, que ficou conhecido no Brasil inteiro graças à propaganda da USTOP, na qual interpretava o Fernandinho, passou a se dedicar ao cinema, junto de sua esposa Bia Lessa, fez também trilhas para cinema, desfiles e teatro. Zaviê é dono do restaurante paulista La Tartine. Yann se dedica a produzir trilhas para outros artistas, atualmente trabalha com Paulo Ricardo, ex-RPM. Alec Haiat, começou a tocar com vários outros artistas, como Otto e Kiko Zambianchi e o último integrante, Pedro Parq, que entrou no Metrô provisoriamente, voltou para Portugal onde se dedica a um novo projeto, chamado Wordsong.

“Senti muito falta da música, dos shows, de tudo aquilo da época. Se a fama sobe pra cabeça? Nossa! Claro! Fazíamos shows de segunda a segunda e largar tudo isso e ter uma vida comum não foi fácil. Aos poucos fui achando alternativas de matar a saudade, pegava um violãozinho e cantava sozinha em casa. Meu marido e minhas filhas me ouviam e já eram um grande público pra mim” – confessa a cantora.

Longos anos se passaram e em janeiro de 2002, Yann e Danny começaram a tocar e desenvolver várias músicas. Zaviê se juntou ao grupo (mas deixou o projeto logo em seguida) e trabalharam em algumas músicas deles e de outras pessoas quando resolveram mandar as gravações pra Virginie, que achou o trabalho ótimo, gravou sua voz em cima dos beats e em seguida veio passar com a família uma semana musical bem caseira no Rio. “Eu trouxe meu caderninho com anotações de músicas que gosto de ouvir e mostrei aos meninos, eles prepararam beats e as bases e eu fui colocando minha voz aos poucos. Na verdade só cheguei a ver o trabalho concluído depois, o Dany fez maravilhas na produção, o resultado final ficou muito além do que eu esperava”. O repertório é próprio, quer nas composições das quais são autores, quer naquelas que são de seu próprio cotidiano: as prediletas de sempre. “O CD foi produzido em minha casa no Rio de Janeiro com um ‘computadorzinho’ e só. Quem escuta apuradamente percebe ruídos que estão lá por falta de equipamento. Tem gente que acha que o tom de descompromisso foi dado ao CD por acaso, essa mania de querer intelectualizar dos críticos, sabe?” – ri Dany. “Na verdade enquanto trabalhávamos neste disco nossas crianças e cachorros corriam em volta na maior bagunça – foi um clima familiar muito grande mesmo”.

O CD foi lançado em um workshop em Maput, Moçambique organizado para revelar novos talentos. “Quando quisemos fazer um trabalho de divulgação aqui no Brasil a mãe da Virginie faleceu e o entusiasmo caiu totalmente. Ficou mesmo na ‘prateleira’ do final de 2002, quando o trabalho foi concluído até agora que voltamos a nos empenhar por causa de um convite para uma turnê na Europa” – fala Dany.

Porque demoraram tanto tempo pra voltar? “A gente recebeu várias propostas, poderíamos ter voltado há pelo menos uns dez anos, mas o que as grandes gravadoras queriam era algo do gênero do Capital Inicial que voltou com o acústico da MTV. Nós não queríamos isso, e do jeito que queríamos nenhuma gravadora se propôs a dar apoio e fechar contrato. Caramba, somos quarentões, crescemos, nos casamos, tivemos filhos, aprendemos! Não poderíamos jamais ficarmos parados nos anos 80. O tempo passou, tínhamos muita coisa nova para mostrar. Mesmo que “Beat Acelerado”, “Sândalo de Dândi” e “Johnny Love” estejam em “Déjà-vu” a gente mostrou uma nova maneira de fazer as mesmas músicas, as deixamos com uma cara mais atual, além de ter coisas lindas de Herbert Vianna, Jorge Ben, Caetano, Ary Barroso e muitas outras coisas”.

O trabalho feito para o CD “Dèjá-vu” resultou em cerca de 40 músicas. “Usamos apenas 18 neste trabalho. Quem sabe tenha mais algum lançamento em breve, vamos trabalhar e ver no que dá” – fala Virginie.

Vocês têm noção de como ainda fazem sucesso? “Não, fazemos? Eu fui embora para a África e me desliguei bastante. Sei da festa Trash 80’s e sei que lá cantam nossas músicas com letra decorada, fico feliz em saber disso, me deixa orgulhosa, vamos ver o que podemos preparar para deixar o público feliz como merece nesta apresentação” – conclui a cantora. Dany por sua vez fala: “Esta festa faz um auê com a gente né? Já ouvi falar sim, mas não entendo como as pessoas ainda lembram das letras, acho isso ótimo, adoro saber que um trabalho feito há tanto tempo ainda faça sucesso”.

OBS: Virginie chegou ao Brasil dia 17 de abril e está na correria desde então. Quando liguei ontem à noite para a casa de seu pai na vila Mariana, ela mesma atendeu o telefone eu fiquei receosa em estar sendo incoveniente por ligar-lhe em pleno feriado às 19 horas. Quebrando totalmente o gelo, a moça responde do outro lado da linha “Olá, é Virginie” com um delicioso francês. Durante a entrevista falou com as filhas por alguns momentos em francês, a voz de menina continua a mesma, ela parece feliz e satisfeita com sua vida. Foi realmente a realização de um sonho de criança ter falado com esta moça gentil e tão talentosa.

A primeira vez que falei com Dany Roland ele me perguntava o endereço do nosso escritório para me enviar uns remixes que foram feitos por um DJ francês. Quando eu disse que o escritório era em frente ao Hospital Sírio Libanês ele ficou quietinho. Eu disse: “Dany? Taí ainda”? Ele disse: “Oi Tuka, estou sim”, e me explicou que estava em São Paulo (ele mora no Rio de Janeiro) também pelo fato de sua mãe ter falecido de câncer exatamente neste hospital. Fiquei sem graça, perguntei se ele queria que eu ligasse outra hora e o moço se manteve intacto, dizendo que era para eu não me preocupar. Desviamos o assunto e ele falou do quanto estava satisfeito de estar finalmente podendo divulgar o Dèjá-vu.

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10 comentários
  1. eu tenho 45 anos e curti muito o metro nos anos 80 sito saudades daquele tempo eu tambem casei tenho dois filhos. gostei muito de saber sobre a Virginie e de todos os integrantes. tem bastante tempo mas parece que foi ontem. amanheci cantarolando uma musica da banda e fui procurar algo sobre a galera que sumiu gostei muito. um abraço a todos.

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  2. tenho muita saldades desta banda que deixuo meu tempo de adolecente mais divertido, como eu queria que eles estivessem na ativa.

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  3. Eu a conheci desde a adolescência, e ela era linda, charmosa (aquele sotaque era delicioso), um tesão. Pena que ela nunca me deu bola ( uma vez que cheguei junto ela ficou naquela estória de sermos “amigos” etc.) porque alguns conhecidos meus que conseguiram me disseram que ela era uma deusa do sexo anal, que curtia fazer oral até o fim sem frescura e nunca dizia não. Era incansável, transava com vários caras diferentes na mesma noite (muitas vezes ao mesmo tempo) numa boa. Era uma garota moderna, estava muito além do seu tempo, parecia as de hoje.

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  4. Eu tenho ótimas recordações da banda METRO. Não dá para esquecer um estilo ímpar como esse !! Quanto ao comentário de Vini Dias eu acho lamentável esse tipo de coisa. Uma pessoa muito inconviniente e que demostra total desrespeito às pessoas. Nossa querida Virginie hoje tem marido e duas filhas que não precisam ter acesso a esse lixo de comentário. Não quero ficar alimentando troll mas cabe aos moderadores retribuir o respeito e o carinho que a banda teve pela equipe, vetando esses tipos de comentários desrespeitosos. Eu como fã e pai de família e sujeito homem fico puto com isso. Obrigado.

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    Luis Cláudio comentou em 17 de julho de 2011 às 5:47 Responder
  5. VIRGINIE ,MULHER ENCANTADORA.

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