A primeira a se iniciar nesse mundinho trash fui eu: Kátia. Era terça-feira de Carnaval, eu estava em São Paulo sem nada para fazer, a não ser assistir às baixarias do “Gala Gay” na tevê. Por acaso, lendo o jornal, soube que haveria uma festa no Teatro Oficina totalmente na contramão do que estava rolando em outros cantos da cidade, com muita música infantil, pop e brega dos anos 80. Telefonei para minha amiga Cíntia sugerindo a tal festa.“É a nossa cara!”, me respondeu do outro lado da linha, embora um pouco desconfiada: “Acho que só vai ter a gente…”. Para não nos sentirmos tão sozinhas, mais dois amigos, a Anand e o Christian, nos acompanharam no que seria uma verdadeira aventura de viagem no tempo…

É claro que nos deparamos com uma fila enooorme… Mas quem se importava em ter de esperar para encontrar “Diversão Garantida”? Não foi nada difícil para nós, entrarmos nesse espírito. A bela arquitetura do Teatro Oficina favorecia o clima de festa, extremamente amigável, que seguiu até às 6 horas da manhã, quando então um dos DJs (não lembro bem se o alto e mais novo ou o mais baixo e “invocado”) anunciou a última música. Nunca dancei tanto em um Carnaval e com tanto brilho no olhar! Passei a noite toda recordando momentos da minha vida e, lógico, as coreografias que marcaram época.
Saindo do teatro, pensei: a Kelly (minha companheira e amiga na revista e nas baladas) precisa saber disso!! Aproveitei a ocasião do aniversário dela, no início de maio, para sugerir uma comemoraçãozinha no Caravaggio. E lá foi ela… “Isso aqui vicia”, foi a frase da Kelly que fechou a noite.

Para quem já passou dos 25 anos é fácil entender o porquê desse deslumbramento ao primeiro contato com a festa. Nós duas temos a mesma idade e atravessamos a década de 80, dos 5 aos 15 anos, podendo assimilar toda cultura que dela emergiu. Certamente nessa fase da vida nada influencia tanto nosso comportamento como a música e seus ídolos. É como se a nossa vida fosse acompanhada por uma trilha sonora e ao ouvir determinada canção fossemos transportados para outro tempo e espaço. É exatamente esse clima deliciosamente nostálgico da Trash 80’s que a faz tão especial e ao mesmo tempo tão despretensiosa. Só lamentamos pelas primeiras festas que perdemos no Hotel Cambridge…

Um dia desses, já completamente contaminadas pelo bichinho da Trash 80’s, abordamos o DJ Eneas e não nos contivemos na rasgação de seda: declaramos a alegria em poder compartilhar esses momentos deliciosos com outras pessoas da nossa geração – dos mais variados tipos e procedências – e ver como ele e o Tonyy desempenham esse trabalho com prazer. Não faltam adjetivos para descrever a festa, é muito bom poder dançar, cantar e conhecer pessoas interessantes que não se constrangem em ter na ponta da língua a letra de “O Amor e o Poder”, tão repugnada por aqueles que curtiam um som mais rebelde, porém, não dispensavam os bailinhos de garagem (com direito à vassoura, é claro!) onde os temas de novela imperavam nos toca-discos. E verdade seja dita: nós duas nunca deixamos de dar aquelas espiadas… Bem, para sermos sinceras, passávamos a tarde toda em frente à tevê assistindo programas de auditório como Chacrinha, Barros de Alencar e até Gugu e o seu “Viva a Noite” na expectativa de ver o Nahim, Menudo e Guilherme Arantes aparecerem – é, como boas irmãs siamesas (by Tonyy) separadas ao nascer, não nos conhecíamos e já gostávamos dos mesmos cantores naquela época. Afinal, todo mundo (até a gente) tem o seu lado charmosamente brega (se é que isso é possível!), mesmo que camuflado.

Não sei se apenas essas lembranças justificam todo nosso encantamento pela Trash 80’s, mas ninguém consegue passar imune a essa experiência. Segundo a Kelly, é o “ar” ou quem sabe a “água” do Caravaggio que nos inebria! Renata, Andreia, Flávio, Dani, Chico, Jonas e Igor são alguns dos que também se renderam à festa e hoje formam praticamente uma comunidade trash que se encontra aos sábados no Caravaggio para extravasar o estresse da vida adulta e renovar as energias para a semana, no maior estilo “Dancing Queen”. São tantos “causos” para contar em pouco mais de quatro meses freqüentando a festa que daqui uns anos, quando ouvirmos hits dos idos de 80, as recordações que irão predominar serão das noites realmente divertidas que temos passado nesse lugar tão peculiar chamado pelos habitues mais antigos de “cortiço”, mas que para nós é o verdadeiro “elo perdido” dentro de São Paulo.

Kátia e os ídolos (dois entre os 5.647.891):
Nikka Costa – Nikka Costa é uma daquelas cantoras que tiveram um único sucesso e desapareceram para retornar 20 anos depois totalmente repaginada. Eu tinha uns 6 anos quando a música “On my own” estourou nas rádios. A melodia triste e a mensagem do clipe super tosco com o pai dela apresentado no Fantástico, eram o suficiente para me emocionar. Mesmo sem entender nada de inglês eu achava que sabia cantar: “Sometimes I wonders where I’ve been…” .
A-Ha – Eu amava, não a apenas pelos bonitinhos Morten, Pal e Mags, mas pelo sonzinho pop que faziam. “Hunting hight and low”, além de ter um belo videoclipe, marcou o início do meu primeiro namoro (ai, ai, coisa boa…). O A-Ha também foi o primeiro show que assisti no Pacaembu, em 1989, com direito a horas de fila, chuva de granizo, discussão, sem falar nas ameaças de pisoteamento… etc.

Kelly e os ídolos:
Menudo – “If you not here, by my side”… Ai, que saudades daquele tempinho!!! Eu tinha uns 11 anos quando a febre Menudo estourou. Morava no interior de Minas Gerais e não houve o que segurasse: dois shows (São Paulo e Rio), álbuns de figurinhas, pôsteres espalhados pelas paredes do quarto, fotos, camisetas; fazíamos de tudo para estar perto dos ídolos Robby, Roy, Rick, Charles, Ray. Tenho todos os discos até hoje!!!

Ritchie – “A vida é arte do saber. Quem quiser saber, tem que viver. Trago um mundo novo pra você. E daí… tudo bem… e você, como vai? Como vai?”. Esse trecho de “Casanova” (lembram-se da abertura da novela global “Champagne”?) é a mais clara definição Trash 80’s! Sem falar de “Menina veneno”, o hit de maior sucesso do cantor inglês, “A vida tem dessas coisas”, “Pelo interfone”, e por aí vai…

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Um comentário
  1. A febre Menudo foi uma das melhores fase da minha infancia,lembro que eu ficava ansioso pra chegar no sabado a noite esperando os meninos porto riquenhos aparecerem no Viva Noite!

    Tive um lp deles que ganhei da minha tia quando tive 3 anos…

    E perdia as contas de quantas vezes a moto do Ricky passava em frente a minha casa…rsrs..

    Ou escutar o orgulho de Charlie de ser piloto de formula Indy nas pistas de INDIANAPOLIS…

    Ou no momento de SE TU NÃO ESTÁS…rsrsrsrs…

    Bate aquela saudade quando lembro dessa época…

    dialog

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