Por Márcio Pires

15 de maio de 2027. 22 horas. Plano-seqüência e narração em off.

Aos poucos, as pessoas começam a chegar no velho e claudicante Edifício Robocop, na Marginal Pinheiros, para o 25º aniversário da Trash 80′s, uma das mais tradicionais festas paulistanas. É uma ironia que, depois de ajudar a revitalizar o centro de São Paulo e fazer com que várias empresas da outrora próspera região da Berrini, caso da Symantec, por exemplo, se mudassem para a Estação da Luz e as adjacências da antiga Cracolândia, a Trash troque de lugar e vá para um treme-treme num dos bairros mais decadentes da cidade.

Não que o bon vivant Luciano Bianchi se importe com isso, mesmo porque ele vem ao país apenas para rever os amigos. Com sua esposa Adriana Spaca sempre voando entre Cannes, Londres e Hollywood para cumprir uma apertada agenda de filmes e peças, ele decidiu curtir a vida e acompanhar do exterior sua fortuna crescendo graças à maior revista masculina do Brasil, “Ocós do Bem”, fundada por eles e por outro casal, Bernard e Ana, que administram o negócio de perto.

Nesta noite, todos eles vão se encontrar. Afinal, as bodas de prata da Trash são um acontecimento sobre o qual todas as luzes da cidade se acendem. Ou tentam, pois apesar da Trash 80′s, Inc. ser uma empresa globalizada, com ramificações em várias partes do planeta, a festa original continua sendo para uma pequena lista (não a lista de discussão do site www.trash80s.com.br, que conta com quase três milhões de assinantes pagantes, mas uma que se oculta dissimuladamente no Yahoogrupos).

Para se ter uma idéia, apenas um profissional da imprensa foi credenciado: Manny Cury, o poderoso publisher da revista de celebridades “Baianas”. Como em todos os anos, a “Baianas” passará os próximos meses processando os inúmeros órgãos de imprensa que publicarão matérias com o título “Exclusivo!!! Nosso repórter escondido na Trash 80′s!!!”. Não é novidade. Jornalistas se jogam na festa desde 2002 e o único incidente sério foi quando um dos diretores da organização surpreendeu Silvia Poppovic tentando entrar disfarçada, o que rendeu um pivô à apresentadora.

“É coisa de velho! Só aqueles dois para ter tanto dinheiro e manter uma festa para 400 pessoas num lugar pequeno e quente! E falei mesmo!”, bufa Alisson Gothz, vestido de lâmpada fluorescente. Ele se refere aos veteraníssimos DJs Tonyy e Enéas. No dia seguinte, quando alguém escrever sobre isso na lista, Enéas responderá “sei” e essa resposta gerará cerca de 48 e-mails de vários participantes, entre eles Lenore, que ainda está em casa para terminar seu blog número 1.000.000.000 e bater seu próprio recorde no Guiness Book.

Enquanto o pequeno anexo do Robocop, construído ainda em 2005, vai recebendo os convidados, os comentários vão enchendo o ambiente. A falta de Raí, por exemplo, é muito comentada. No entanto, o diretor da regional centro-oeste da empresa teve um dia cheio, representando Tonyy e Enéas num encontro que definiu o uso de incentivos fiscais do governo argentino para abrir a primeira boate Trash 80′s de Buenos Aires. O encontro foi intermediado por Dany Dee, que primeiras edições da festa ocultava seu status de diplomata portenho. Confiantes, os dois veteranos trashers já contrataram o esquecido Fito Paez, que perambulava pela capital argentina fazendo shows cover de Sílvio Brito e Daniel Azulay, para a inauguração da “La Trashera”.

A bombástica chegada do “diretor adjunto de gestão de marca, comunicação e identidade corporativa da Trash 80′s, Inc.”, como gosta de se anunciar Ricardo Schmidt, sempre assusta quem já está no terceiro drinque. Schmidt, à exceção do abdômem, em nada lembra o velho DJ Rico Suave dos tempos românticos do Anhangabaú. Com muito dinheiro no bolso, diz que sempre quis se vestir como executivo e que ninguém tem nada a ver com a cor de seus sapatos.

Sempre contemporizador, Edu Negão pede para Enéas relevar o fato de Bruno ter tocado “Fácil” na edição especial Trash 90′s. “Ele não fez por mal e todo mundo já falou que Jota Quest não é trash, é só ruim. E o cara já tem 46 anos. Chega de chamar de Fraldinha que já encheu”. Enéas simplesmente levanta, diz “sei” e vai para o bar. Sem pensar duas vezes, Negão começa a perguntar a várias quarentonas indies que entraram na lista ainda na época do Caravaggio se elas realmente já aprenderam o que é O-Y-M. Por trás de Edu, Iberê fica fazendo caretas para as indies, encostadas na parede desde que começaram a beber.

Numa outra rodinha, Magiozal, Rubens, Psychofreud e Cláudio conversam compulsivamente sobre detalhes obscuros da cultura pop. A cada ano que passa, cresce a suspeita de que Márcio Pires seja um avatar eletrônico criado por algum deles. Afinal, ele aparece raramente na festa e jamais houve notícia de um contato dele com um ser humano sóbrio na Trash. Há até quem acredite se tratar de uma entidade. Quem também aparece raramente são Amanda e Camila, mas pelo menos os mandatos nas prefeituras de Santo André e São Bernardo justificam suas ausências.

Diferentemente dos apertos financeiros das primeiras edições da festa, neste ano a volta do Duran Duran apenas para este show causou espanto na imprensa internacional. Para os trashers, não faz diferença se Simon Le Bon é um ancião que canta sentado. Ele ainda tem bom humor para dizer que é o peso da maquilagem. Nick Rhodes é obrigado a interromper o show antes de “Planet Earth” pois esqueceu de tomar seus comprimidos, mas nada isso faz o refeitório do Robocop parar de tremer. É uma catarse coletiva.

Quando o vocalista deixa o palquinho em sua cadeira de rodas com aros neon, a emoção é grande. Quem chega perto de Renata Bonaccini vê uma pessoa rindo sem parar. Vê também uma embalagem de acetona vazia rolando no chão. Vemos também muitos rostos, tantos que não poderíamos contar neste espaço, mas cada qual com a sua própria lembrança desta noite: Zeezo e Gigi, convidando vários amigos para jogar Pula-Pirata no dia seguinte, Maicon Max, Rodrigo Marko, Zizi, Diego, Estevam, Ni, Allan… a lista é interminável. Vêem-se todos os trashers da lista. Só não se vê o DJ Tonyy. Onde estará Tonyy?

“Vai trabalhar, Sapo-Boi maldito! Vai limpar os banheiros! É bom encher o saco dos outros? Toma, desgraçado!!!” Às vezes, Alisson acha que é um pouco demais tratar aquele homem velho dessa forma, mas há um componente sádico do qual ele gosta. Principalmente durante o show do Duran Duran, quando os banheiros estão vazios, vestir-se com couro preto e chicotear o Sapo-Boi é algo que o faz beirar o êxtase depois de todos aqueles anos de dificuldades. Mas uma surpresa está na frente do espelho do banheiro.

“Vem tirar braço-de-ferro comigo, vem!”, diz o DJ, bem mais velho. Ao seu lado, como sempre, a doce Lorack. “Amor, já falei que esse não é o Enéas e aqui não é a cabine de som. Vem comigo, amor. Depois do mingau já é o seu set”. “Não, bunitinha, esse barbudo é bunda-mole. Vem encarar o meu braço! E não adianta falar ‘sei’ pra mim”.

Epílogo
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Já são quase dez horas da manhã de domingo quando Larinha consegue chegar em casa, depois de uma ruidosa passagem pela Bella Paulista com mais 18 trashers fortemente alcoolizados. Fofa como ela só, a Goonie quer ser a primeira a mandar um e-mail para a lista. Não desta vez. Em sua caixa de entrada, uma mensagem que a faz deixar cair suas orelhas de Minie no chão e pensar “vai ser uma semana daquelas…”.

“DEPOIS DE 25 ANOS, VOCÊS CONTINUAM DEIXANDO TODO MUNDO FAZER XIXI NO PALQUINHO??? ONDE ESTÃO OS DJS QUE NÃO VÊEM ISTO???”.

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