Por Aluízio “Zeezo” Fagundes.

Em 1980 eu tinha dez anos de idade. Estava entrando no ginásio, e ainda não me presocupava com qualquer tipo de responsabilidade: nos intervalos, jogava “bafo” (ou “batia figurinha”), brincava de Supertrunfo ou me
desligava do mundo tentando resolver o Cubo Mágico. Chegando em casa, brincava com o Falcon, me concentrava no Genius ou me estrupiava na rua em carrinhos de rolimã. Quando estava sozinho e introspectivo, montava aviõezinhos, submarinos ou caravelas Kit Revell, ou então fazia as palavras-cruzadas ou caça-palavras Picolé. Se queria me distrair, sem precisar pensar muito, era só ligar a TV e ficar horas assistindo aos seriados e desenhos animados: os meus preferidos eram Viagem ao Fundo do
Mar, Túnel do Tempo, Agente 86, Perdidos no Espaço e As Panteras. E as guloseimas? Mascava chiclete Splash (que era gigantesco e mal cabia na boca), me esbaldava em Dan Tops e abusava dos mandiopans com suco de groselha Milani nas tardes televisivas. E no bolso, sempre tinha bala
Banda ou drops Dulcora.

Foi só a partir de 1982 que meu leque aumentou e as perspectivas começaram a mudar. Minha diversão passou a ser ir naquelas pistas enormes de autorama, levando meus carrinhos Mabuchi, Mura 12 e Mura 20 dentro de uma sacola Tiger. A mania era colecionar figurinhas de futebol dos chicletes Ping Pong (era época de Copa do Mundo). Fui em meu primeiro “bailinho”, no salão de festas do prédio em que morava e eu dei meu primeiro beijo na boca. O que mais se ouvia era a trilha sonora da novela Sol de Verão, e lembro que todo mundo tinha. Para poder se estar em dia com as músicas, o jeito era passar tardes inteiras com o rádio ligado nas estações do momento (que se não me engano eram a Jovem Pan e a Transamérica), para conseguir gravar em prosaicas fitas cassete da TDK ou Basf (e o máximo eram as novíssimas fitas de 90 minutos, que superaram as de 60), em nossos upermodernos 3 em 1 da Panasonic ou Gradiente (CCE sempre foi um lixo, isso era uma unanimidade!). Revolução mesmo foi quando ganhei o Atari, e as tardes televisivas passaram a ser “atarísticas” -eu cheguei a ter uma sacola de miolos de joystick de reserva, que eram frágeis e quebravam principalmente nos jogos “Decathlon” ou “Olimpíadas”. Na falta do Atari, carregava sempre um Game & Watch no bolso, comprado na Galeria Pajé, dando preferência para o alaranjado de tela dupla Donkey Kong. Além disso, o walkman reinava absoluto nas orelhas da molecada. E fui em meu primeiro show – assisti Blitz no Palace e nunca mais esqueço que vi a calcinha branca com bolinhas vermelhas da Fernanda Abreu.

1983 foi um grande ano, um marco da minha juventude. Saí pela primeira vez, para ir em uma matinê: ia no Regine’s, que ficava no Itaim e tocava Devo, Duran Duran e B52′s. Era o comecinho da onda New Wave. A casa fechou e tomei gosto pela coisa, freqüentando outros lugares: o Madame Satã surgiu como um templo gótico e comecei entrar em uma fase Dark, freqüentando o lugar que tocava Cocteau Twins, Joy Division, Siouxie & The Banshees, The Smiths, Sisters of Mercy… deixava minha mãe de cabelo em pé com minha mania de colocar roupas pretas. Surgiram as irresistíveis promoções da Coca-Cola, com suas mini-garrafinhas
colecionáveis… no ano seguinte entrei em uma fase mais new wave, com roupas multicoloridas da OP ou Philippines, tênis yatch quadriculado da Rainha e muito gel colorido no cabelo. E comprei minha primeira revistinha de sacanagem.

Em 1985 fui ao Rock in Rio, foi o meu primeiro festival de música e, disparado, o melhor de todos. Nunca mais me esqueço da sensação que foi assistir, num mesmo evento, artistas do quilate do Queen, Whitesnake, Iron Maiden, AC/DC, Ozzy Osbourne, Yes, Scorpions, B52′s, Rod Stewart, Barão Vermelho (com o Cazuza!), Blitz, Kid Abelha, Paralamas do Sucesso, dentre outros. A partir daí, comecei a prestar mais atenção ao rock, sem deixar de curtir o new wave. Na verdade, minha bagagem cultural foi se acumulando, e pouca coisa foi sendo descartada. Isso contribuiu para eu me tornar um verdadeiro camaleão, me adaptando aos mais diversos tipos de eventos ou festas. Profusão de danceterias: Tamatete, Rose Bom Bom, Area, Dancing, QG… ah, e foi neste ano que ganhei uma mobilete – e uma boa ralada na perna. Comecei a ficar viciado em cinema. E em vídeo-cassete, uma super-novidade, que servia principalmente para eu gravar os videoclipes do programa Shock, que passava na Manchete. O difícil era ver algum filme bom em vídeo, pois havia poucos videoclubes na época, e com limitadas e mal-copiadas opções para a (cara) locação.O ano de 1986 marcou a febre pelos ioiôs da Coca-Cola e cheguei a ir em alguns concursos que rolavam em um supermercado Bazar 13 que havia perto de casa. Nunca cheguei perto de ganhar algum, mas era divertido e sempre aprendia a fazer algum truque novo para depois tentar impressionar os amigos ou a família. A danceteria da vez era o Up & Down, e ouvir New Order era praticamente obrigatório – e necessário. Descobri os quadrinhos, com o lançamento de diversas graphic novels, a começar pelo sensacional Cavaleiro das Trevas. Aos 18 anos, em 1988, tive minha primeira namorada séria, com quem tive minha primeira experiência sexual. Foi uma época em que comecei a deixar de lado a diversão, por conta do vestibular. Ganhei o meu primeiro carro, um Passat ano 79. Foi o ano em que descobri as responsabilidades, com primeira namorada séria, vestibular e que eu tive de tomar uma decisão que viraria minha vida de ponta-cabeça: sair de casa. Comecei a trabalhar, ganhar meu dinheiro e a me sustentar, mesmo que parcialmente.Em 1989 ganhei meu primeiro CD player e comprei meu primeiro computador, um PC. Era a revolução tecnológica começando a tomar conta da minha vida – e a internet se resumia a lentíssimas BBSs. Com namorada séria, faculdade e trabalho, comecei a ficar caseiro e descobri os barzinhos. E os primeiros porres.

A partir de 1990 deixei o cabelo crescer e… bom, aí já é outra história!

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