Por Denis Klein.

Quem
freqüenta a Trash 80s pode curtir a festa sob duas perspectivas: a da
adolescência ou a infância. Como nasci em 79, os anos 80 foram a minha
infância. Então toda essa tralha de Dip Lik, neon e domingos
deprimentes vendo a Isadora Ribeiro sair da água, foram a base da
pessoa que eu sou hoje, foram as coisas que me educaram.

Eu tenho a teoria de que as crianças estão exercitando o que vão ser
no futuro quando brincam. Então se você, por exemplo, gostava muito de
brincar de esconde-esconde, você poderá ser um bom fugitivo da justiça
um dia.

Eu poderia falar de uma infinidade de brincadeiras típicas da nossa
época. Mas quero falar sobre brinquedos. Ai tem uma porção de
brinquedos que eu posso falar. Resolvi falar apenas dos bonecos. Ainda
os bonecos são muitos, então eu vou apenas pincelar um pouco da
história de alguns que eu julguei como principais a partir de um
critério super científico: o que me veio na cabeça primeiro.

Barbie:

Essa boneca Barbie, cuja cabeça eu arranquei tantas vezes na
tentativa de irritar minha irmã, foi criada por uma moça chamada Ruth
Handler. Observando sua filha Bárbara brincar com bonecas de papel em
que se imaginava adulta, Ruth sacou que talvez as meninas não quisessem
brincar só de mamãe, já que as bonecas geralmente eram bebês.

Então, trocando em miúdos: Ruth percebeu que sua filha não tinha
vocação para a família, que queria casar com um playboy malhado (que
inicialmente se chamava Bob, e mais tarde se chamaria Ken) que estaria
disponível para romance a qualquer hora do dia e, ainda assim, teria
dinheiro para lhe comprar uma infinidade de vestidos, móveis para
guardar tranqueiras e uma coleção dantesca de diferentes banheiras,
todas capazes de produzir bolhas de sabão e deixar as mães putas da
vida com a sujeira que o brinquedo fazia. Estava então inventada a
boneca que serviria de modelo para delinear um mundo de luxo e glamour,
o mundo de Barbie, que para ser uma festa de artistas de Hollywood só
falta um pouco de cocaína e algum personagem dotado de genitália.

Ruth criou a boneca em 1956, mas só em 59 ela ganharia o nome de
Barbie, que era o apelido de sua filha Bárbara. Ruth fundou com seu
marido a Mattel, que produziu comercialmente a boneca a partir de 1959,
sendo vendida inicialmente ao preço de US$ 3,00 e a tia Ruth tem até
biografia publicada: chama-se Dream Doll, the Ruth Handler Story.

Comandos em Ação:

Esses machões, de nome original G.I. Joe (que significa recruta em
inglês), começaram a ser desenvolvidos em 1964 por uma fabricante de
brinquedos chamada Habro. Inicialmente o projeto foi visto com
reservas, já que de certa forma, a sugestão era a de que meninos
passassem a brincar de bonecas. Mesmo assim foram 3 anos de
desenvolvimento em que os projetistas da Habro chegaram a, inclusive,
usar projetos de armas do exército dos Estados Unidos. Inicialmente
estes bonecos tinham por volta de 30 cm e foi nesse formato que os
bonecos Falcon fizeram grande sucesso aqui no Brasil, mesmo ninguém
conseguindo entender por onde que o Torak respirava (vamos acreditar,
em nome da nossa memória, que ele era um robô ou algo do tipo).

No fim dos anos 80, por razões comerciais, os bonecos tiveram seu
tamanho drasticamente reduzidos. Suas roupas e seus cabelos passaram a
ser molduras de plástico pintadas. Foi dessa forma que nós conhecemos
os Comandos em Ação e foi por causa desses tampinhas que nós passávamos
as tardes inteiras montando cenários de guerra e deixávamos de fazer
lição de casa e tomar banho, criando tramas bizarras em que uma legião
do mal fazia o mal simplesmente porque gostava de fazer o mal. E quem
nunca pegou 2 ou 3 bonecos quebrados e fez “cirurgias” para constituir
um novo boneco inteiro (de repente até com a ajuda da ambulância do Dr.
Sara-Tudo). Eu acho que esses bonecos foram o que ditaram o conceito de
ser macho para a nossa geração: se eu trabalhasse na Estrela hoje, eu
projetaria um boneco massudo, de camiseta regata, que vem equipado com
uma tigela de açaí. Pickup S10 com pitbull na caçamba vendida
separadamente.

Hoje em dia os bonecos Falcon são cultuados no Brasil e existem
colecionadores que se rastejam em busca de bonecos em bom estado de
conservação. Lá fora, quando as vendas dos bonecos entraram em crise,
foi lançada uma revista em quadrinhos dos G.I. Joe e, logo na
seqüência, o desenho animado, que com certeza foi assistido por muita
gente que está lendo este texto. Durante o desenvolvimento dos trajes
primeiros bonecos, foram utilizados bonecos Ken (sim, aquele mesmo da
Barbie), o que nos leva a crer que os Comandos em Ação tem origem
suspeita e que eu nem quero saber o que rola no dormitório deles
enquanto eles estão em campanhas militares.

Playmobil:

Esses carinhas não tem uma história muito interessante, na verdade.
Uma empresa alemã chamada Metallwarenfabrik Georg Branstatter, tão
especializada em brinquedos que, no seu portfólio de produtos haviam
telefones e caixas registradoras. O primeiro protótipo do boneco cabeça
oca menos articulado do mundo data de 1958, mas só alguns anos mais
tarde é que ele foi devidamente explorado.

Se a Barbie é o modelo da perua, e os Comandos em Ação o modelo do
machão oitentista, acho que o Playmobil é a coisa mais indefinida
possível: a diferença entre os meninos e as meninas se resumia a um
corte de cabelo, não havendo seios ou quadril para ser analisado. Todos
eles tinham igual facilidade para ficar de quatro, o que quer dizer que
todo mundo tinha a opção de cumprir diversos papéis. Isso acaba se
expandindo socialmente no sentindo de que um playmobil podia ter
qualquer profissão: de astronauta a índio apache (e que ninguém me
questione se “índio apache” pode ser considerado uma profissão).

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