Por Fernanda G. Seiffert (Fê Ruça)

Na década de 80, não nos importávamos com a expressão “politicamente correto”. O que importava era a diversão que obtínhamos através de doces divertidos, cantigas de roda que nos encantavam, casas noturnas com nomes estranhos e ponto final.

No campo das guloseimas, existiam os Cigarrinhos de Chocolate. Será que esses cigarrinhos incentivaram gerações inteiras a fumar? Talvez não. Mas com certeza ajudaram muito nas brincadeiras em que o menino era o papai que voltava cansado do trabalho e deliciava-se fumando um belo cigarro enquanto a mamãe preparava a comidinha. Aquele papel metálico do chocolate chegava a ficar desbotado de tantas vezes que era tragado. Cansava-se da brincadeira, comia-se o chocolate.

Ainda hoje os tais cigarrinhos são comercializados, no entanto sob um nome politicamente correto: Rolinhos de Chocolate. A embalagem mudou. Os dois meninos (um loiro e um negro) que antes apareciam segurando seus “cigarros” como adultos, agora aparecem sorrindo com seus dedões erguidos, numa clássica posição de “tudo bem”.

Outra coisa divertida: aquelas balinhas produzidas pelo mesmo fabricante dos Rolinhos de Chocolate que possuem formato de comprimidinhos coloridos. Quem não gostava de ser o doente nas brincadeiras em que as balinhas eram os remédios? Eram encontradas em diversos lugares à venda, mas agora… Onde estão? Somente nas prateleiras da loja da fábrica em São Caetano do Sul? Talvez. É certo que, quando elas aparecem, causam alvoroço dentre aqueles que saborearam a vida oitentista. Mas, o que teria levado ao desaparecimento de tais doces? Não é mais politicamente correto comer balinhas em formato de remédio? Corre-se o risco das crianças começarem a comer o Gardenal ou o Valium que encontrarem em casa?

Até as cantigas de roda que animaram as brincadeiras das gerações 80’s, 70’s, 60’s… estão sendo modificadas para uma forma politicamente correta.

As crianças não podem mais atirar o pau no gato nem cantar a história do cravo que desmaiou quando a rosa o visitou. O boi não tem mais a cara preta e creio que seja um absurdo se alguém ousar cantar Roda! Roda! Roda! / Pé! Pé! Pé! / Roda! Roda! Roda! / Caranguejo peixe é! Não é politicamente correto dizer que o caranguejo é um peixe! Pode causar traumas ao crustáceo…

Essa moda de fazer uma releitura de todas as coisas que conhecemos com o objetivo de torná-las politicamente corretas está beirando o exagero. Tudo que as gerações anteriores conheceram estão mudando radicalmente não só os nomes, mas estão perdendo sua essência.
Agora resta uma pergunta: como seria o nome de uma das mais tradicionais casas dos 80’s, o Radar Tan Tan, hoje em dia? Talvez… Radar Desequilibrado Mentalmente? Não… Afinal não é politicamente correto classificar e denominar algo/alguém pela patologia que apresenta.

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