Foi assim: eu e uns amigos estávamos prontos para ir a uma balada indie que rolava lá na região de Pinheiros quando uma amiga de um deles começou a botar defeito. E o pior de tudo é que nada do que sugeríamos estava bom. Então decidi sair um pouco do circuito underground e propor uma festa que havia conhecido com a Carla em agosto do ano passado, na qual havia ido umas duas vezes, lá no Bar d’Hotel Cambridge.

A menina não gostou muito e acabou indo para casa, mas minha sugestão funcionou e, depois de descobrirmos que a balada havia se transferido para o Caravaggio, lá fomos nós para a Trash 80’s. Era época de carnaval e talvez por isso a pista não estivesse muito cheia. Mas foi até bom, porque a garota que havia botado defeito em tudo havia me estressado demais.
E bastou ouvir He-Man, do Trem da Alegria, para que eu esquecesse toda a minha raiva e me jogasse naquele espaço que eu tinha para dançar. Me lembro que havia gostado das duas festas lá no Cambridge – que eu achei perfeito com sua aura kistche-decadente – só que, fosse porque eu estava mais inserida na “ceninha” indie, fosse porque a festa foi se aprimorando, eu não havia achado a Trash tão lúdica quanto me pareceu naquele retorno.

Me empolguei e da empolgação para a ida ao Carnatrash, no Teatro Oficina, foi um pulo. Foi ótimo ficar arrepiada ao observar cerca de 300 pessoas cantando juntas todas aquelas músicas que fizeram parte da minha infância, já que eu nasci em 1981. Nunca vou esquecer da sensação de alegria que senti ao ver a massa dançando a famosa música do Bozo: “Chuveiro, chuveiro, não faça assim comigo, Chuveiro, chuveiro, não molhe o seu amigo…”, só para citar um exemplo.
Foi simplesmente maravilhoso me sentir voltando à infância. E como essa sensação não tem preço, eu resolvi ir à próxima Trash, e à próxima, à próxima… até virar um vício. É que a felicidade vicia mesmo e a Trash conquista tão facilmente pelo simples fato de que lá dentro todas as classes sociais, tribos e a diversidade sexual convivem juntas, sem ter que fazer pose ou carão. Além do que, em que outra balada eu ia poder esticar o braço como se estivesse segurando uma espada invisível, ou fazer trenzinho, ou ainda subir num palquinho para literalmente interpretar a música com caras e bocas?
Logo entrei na lista de discussão, percebendo o quanto aquelas pessoas que eu via constantemente lá no Caravaggio, fosse no palquinho ou perambulando pela pista, eram receptivas e faziam questão de conhecer quem ajudava a lotar a casa todos os sábados. Meio tímida no começo, fui me apresentando a quem reconhecia das fotos e assim fui conhecendo toda a família trasher, até eu mesma me tornar uma.

E nesse meio tempo descobri que não existe slogan mais perfeito para a festa do meu coração: Trash 80’s é, DEFINITIVAMENTE, diversão garantida.

E por isso mesmo, ao invés de indicar artistas e coisas que gosto na “década que o bom gosto esqueceu” (ainda bem), resolvi citar alguns fatos que ocorreram nesses meses em que me tornei trasher e que, sem dúvida nenhuma, assim como os anos 80, marcaram minha memória para sempre.

SBTrash – Essa festa foi a que realmente me mostrou o quão divertida a Trash podia ser. Sempre AMEI a emissora do Seu Sílvio e de repente ouvir músicas relacionadas a desenhos animados e aberturas de programas da antiga TVS (como era chamado o canal nos anos 80) foi uma coisa que mexeu comigo. Destaque para Rico Suave subindo ao palco vestido de Sílvio Santos, chamando os amigos trashers fantasiados de personagens do canal: Sara do Cavalo de Fogo (lalalalalalalala; é, a gente cantava assim enquanto o povo subia ao palquinho, como se estivesse no Show de Calouros), Mara – a baiana e – pasmei no dia – Aracy de Almeida. Poxa, essa foi desenterrada do fundo do baú (da Felicidade?) e eu ri pelo menos um mês inteiro tentando explicar para as pessoas como alguém havia conseguido se fantasiar da antiga jurada rabugenta.

A primeira vez em que ouvi a abertura do Cavalo de Fogo na festa – Foi na SBTrash mesmo. Mas foi uma coisa à parte. Eu me lembro que logo no comecinho da música, quando reconheci do que se tratava, tremi. Me arrepiei. Não sabia se ria ou chorava. E, como boa fã, cantei a letra inteirinha, de olhos fechados, como se estivesse vivendo O momento da minha vida.

Quando tocou um pedaço da abertura do desenho do He-Man seguido da música do Trem da Alegria – Nossa, dizer que me arrepiei foi pouco. A abertura do desenho tocando com as luzes apagadas parecia anunciar algo fantástico. E foi mesmo. Quando a música do Trem da Alegria entrou logo em seguida, sem nem dar tempo de respirar, o povo todo surtou, inclusive eu, e a cena da galera dançando e cantando foi uma das coisas mais contagiantes e divertidas que eu já presenciei e participei na minha vida.

Ouvir o jingle da Estrela – Uma das coisas que mais me faz gostar da Trash é poder lembrar da infância, que foi muito feliz. Por isso mesmo, quando Manny Curi, então DJ convidado, tocou o jingle da indústria de brinquedos que mora no coração de todo trasher, eu surtei. Fechei os olhos e chorei, muito. E de alegria! Acho que nunca agradeci o garoto por ter tocado o tal jingle. Então agradeço aqui: você proporcionou, sem dúvida, um dos melhores momentos da minha vida ao despertar lembranças maravilhosas em mim. Muito obrigada!

Conhecer meu namorado ao som de lambada – E como a Trash sempre une pessoas e arruma casaizinhos, comigo e com o Chico não foi diferente. E nos conhecemos de uma maneira bem trash mesmo, por assim dizer. Foi ao som de Tieta, do Luís Caldas. Eu tinha sacado que ele estava me olhando, e sorri para ele. Como ele não podia subir no palquinho e nessa hora eu estava lá, bem, ao ver que ele fazia gestos com a mão acompanhando a letra da música (“Vem meu amor, vem com calor, no meu corpo se enroscar…”), desci. E aí o resto é resto. Basta saber que estamos juntos hoje e muito bem. Quando me lembro desse dia (e de tantos outros) sempre digo a mim mesma: tem coisas que só a Trash faz por você.

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