Eu sou punk. Eu sou comunista. E eu tenho isso na cabeça desde os anos 80. Tenho alguns quilos de literatura jovem publicada pela Editora Brasiliense no meu quarto e na casa da minha mãe. Eu comprava tudo o que era publicado sobre adolescentes socialmente desajustados e muito do que eu penso hoje, ainda que devidamente revisto e atualizado, tem sua base nessas coisas que eu lia (“Porcos com Asas”, “On The Road”, “De Peito Aberto”) quando moleque.

Naquela época, eu pensava no quanto eu odiava flash-backs. Aquelas músicas horrorosas ouvidas por tigrões grisalhos bigodudos mandando torpedos com cantadas pré-fabricadas para peruas em boates decoradas em tons dourados. Flash-backs – músicas para pessoas que não querem se abrir para o novo.

Enquanto meu chefe ouvia Chubby Checker no rádio em 1986, eu queria dinamitar a emissora, torturar o locutor, chacinar a família do programador e expropriar a conta bancária do meu chefe. Afinal, eu já tinha 14 anos, já era punk, já era comunista, já odiava flash-backs e jurava que nunca iria deixar o saudosismo me impedir de ouvir as coisas que aconteciam no meu próprio tempo.
Mas como disse o Fred Zero Quatro, todos os metidos a anarquistas e comunistas dos anos 80 envelheceram e se transformaram em uns tremendos cínicos nos anos 90. Eu continuava odiando os malditos flash-backs mas cinco verões seguidos em Paraty me fizeram venerar o programa de velharias da Costa Azul FM. Absyntho, Vestidos de Espaço, Tokyo, Sempre Livre e outras bandas medonhas fizeram a trilha das minhas férias de 95 a 99.

Quando eu ouvi alguém falar sobre uma festa que tocava as podreiras dos anos 80, fiquei desconfiado. Parecia algo bem cínico, mas poderia também ser daquelas ciladas “É, eu sou moderno-e-descolado e por isso gosto de ir em lugares pseudo-despojados, desde que tenha bastante mulher gostosa”. Mas era no centro da cidade, o que merecia um voto de confiança. E depois de um bom tempo, acabei indo ao Carnatrash do Teatro Oficina.

A festa foi memorável. As músicas realmente eram péssimas, os DJs conheciam bem o lixo da época e as pessoas eram completamente despudoradas. Mesmo assim, saí do Oficina achando que não voltaria em menos de alguns meses. Afinal, uma piada só é realmente engraçada na primeira vez em que você a escuta. Por curiosidade, entrei na lista de discussão da festa. Talvez fosse um antro de saudosistas falando de flash-backs, mas poderia ser um reduto de cínicos.

A lista era como a própria festa: uma grande diversidade de freqüentadores, incluindo cínicos, saudosistas e vários outros tipos de interessados. Um ponto em comum entre vários deles era a mordacidade e a qualidade dos textos. Comecei a freqüentar mais a festa e acompanhar os blogs dos trashers, além das galerias de fotos, para tentar associar discurso e imagem. Um dia, cansado de não conhecer pessoalmente quase ninguém, pensei em uma forma de me entrosar: escrevi um texto citando vários assuntos que estavam em voga. O resto, como se diz, é história: depois do texto, tornei-me conhecido na festa e passei a ser desejado pelas mulheres, invejado pelos homens e aporrinhado pela gerente do meu banco, que toda segunda-feira liga avisando que eu preciso cobrir o cheque que passei sábado no Caravaggio.

Para encerrar, o tradicional ranking dos “três mais”. Os três flash-backs que – cinicamente – mais me divertem são Righiera – “Vamos A La Playa”, Graffitti - “Mama Maria” e Gazebo – “I Like Chopin”. Afinal, poucas coisas são mais pavorosas do que bandas de um único sucesso. Quem ouve nunca sabe o nome do artista (sic), de onde ele veio, para onde ele foi ou se gravou mais uma única faixa que seja. As três são tão ruins que, numa ótica punk e comunista, só servem como uma crítica cínica e irônica a todo o lixo que a sociedade de consumo produziu nos anos 80… mas se eu escrevo isso num texto para uma festa cujo slogan é “Trash 80′s É Diversão Garantida!”, o Eneas me mata.

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