Por Trash 80´s

Foto de Valter MonteiroAcho que de uma coisa ninguém vai descordar. Pra quem ouve os hits da “Madonninha Capixaba”, a primeira vez é quase que assustadora, depois vira uma deliciosa comédia.

A infante de então 9 anos fez “versões” de músicas da cantora pop mais importante do mundo, com um estilo todo seu: voz aguda e gritaria absurda. Mas não foram simplesmente versões. As letras não foram transformadas do inglês para o português baseadas no que há de significante em uma música para que realmente a tradução faça sentido para quem ouve. Explicando: cada língua, cada cultura ou seja cada país que fale idiomas diferentes apresenta um jeito único de se dizer determinadas coisas. Mas Gizelle, sim com “Z”, não estava preocupada com isso. Ela cantou as músicas, já extremamente consagradas de Madonna, e as traduziu literalmente. Não se baseou na letra de um jeito inteligível como em versões de músicas estrangeiras que temos aos montes por aqui, mas fez questão de dizer palavra a palavra do que a “cantora original” falava em inglês. E é incrível como desta forma todos os hits que consagraram Madonna e que foram cantados pelos quatro cantos do mundo se tornaram ridículos e extremamente engraçados.

Gizelle cantou o que se tornaria uma febre na Internet da maneira que achou que deveria. As músicas são ao pé da letra, o ritmo e a melodia das canções se mantém, mas a qualidade é de um teclado e um microfone, ou até mesmo um videokê. Já a voz é de uma criança desafinada que se divertia com as gravações.

Somente depois de cinco anos estas músicas vieram à público. Um dos CDs gravados por ela, foi dado de presente para seu ex-professor de inglês que um belo dia mostrou à um amigo – “Meu professor Dalton se mudou para o Rio e se tornou colunista de um site, como estava chegando perto do aniversário de Madonna e eles não tinham preparado nada, ele se lembrou que quando ele morava em Vitória tinha recebido de presente um CD de uma aluna sua. O CD tosquíssimo era o meu, gravados em português com as músicas da artista”. Foi assim que em agosto do ano de 2003, suas músicas foram parar no site www.topassada.com, e a menina, atualmente com 18 anos, se tornou objeto de curiosidade de milhões de brasileiros. “Eles não pediram autorização pra isso. Se tivessem pedido eu teria negado, claro! Eu tinha noção que aquele CD não tinha qualidade nenhuma, eu era uma criança quando gravei”.

Todas as músicas que a garota gravou no álbum intitulado: “Em Busca da Vitória”, ficaram disponíveis para download no site e a transformou em um verdadeiro “cult da Internet”. Não se falava em outra coisa, o site teve records de visitas e a capixaba do dia para a noite virou uma “celebridade”. “Quando isso aconteceu me senti até feliz, mas sabia que as pessoas estavam na verdade me zoando, tirando um sarro da minha cara, senti vergonha depois de um tempo. Daí um dia minha mãe me disse que não era qualquer pessoa que tem coragem de dar a cara à tapa daquele jeito, ainda mais com tantos problemas pelos quais eu já havia passado na vida”.

Ela se espalhou pela web e virou assunto em milhares de sites, blogs, e-mails e listas de discussão. Todo mundo queria saber e conhecer a responsável por todas aquelas pérolas. O assédio e procura pelas músicas de Gizele foi tanta que quando ela soube de tudo, a brincadeira amadora e infantil já estava no UOL e na MTV. Então, já que não dava pra voltar atrás, ela mandou retirar as músicas do site (que podiam ser ouvidas e gravadas por qualquer um gratuitamente) e passou a vender o CD ao preço de R$10,00. “Não vendi nenhum CD, fui alertada que poderia ter problemas com direitos autorais e retiramos os anúncios de venda, na verdade só vendi 2! E para amigos de Vitória” – riu Gizelle.

Gizele Silveira “produziu” 12 canções de sucesso da década de 80 da rainha do Pop com tiragem de 500 cópias do CD. O álbum é composto por músicas como “Estrela da Sorte” e “Em Busca da Vitória”. Mas as que merecem destaque vêm em seguida. As aclamadas “Como uma virgem” (Like a virgin), “Garota Materialista” (Material Girl), “A Ilha Bonita” (La Isla Bonita), “Papai não Brigue não” (Papa don’t Preach), “Como uma Prece” (Like a Prayer), “Feriado” (Holiday) – são estas que fizeram com que as pessoas ficassem “absortas”.

“Eu tive uma doença séria e rara aos 3 anos de idade e fiquei sem andar até os 6 anos. Fiz milhares de tratamentos e um dia finalmente estava começando a me recuperar, isso depois de um médico ter me dado 6 meses de vida e falou na minha frente. Minha mãe ficou maluca.” O que Gizelle teve foi uma artrite reumatóide. Na época em Vitória, onde morava, não existia tratamento especializado e ainda sofreu por ter tido um diagnóstico errado. “Logo que comecei a sentir dores nos pés e nas costas, um médico disse que eu tinha meningite e retirou por duas vezes líquido da minha espinha dorsal, o que piorou a minha situação ainda mais”.

Quando foi que Madonna entrou na história da vida da menina? “Eu não podia fazer mais nada além de ficar na cama e assistir televisão. Um dia passou uma reportagem especial no Fantástico falando com detalhes sobre a vida da cantora. Disse sobre a luta, sobre tudo o que ela passou até conseguir o sucesso. Aquilo me inspirou e deu asas aos meus sonhos”. Neste tempo ela já estava fazendo um tratamento correto para a doença que possuía e começava a recuperar os movimentos do corpo.

“A idéia do CD partiu de uma brincadeira. Eu já cantava em uma caravana de crianças fazendo festas de aniversários e eventos e dublava a Madonna. Minha mãe era costureira e fazia as minhas roupas. Aos 9 anos um amigo meu foi embora e me deixou uma caixa de coisas de Madonna. Tinha revistas com traduções, vídeos, fotos, vinis e eu simplesmente adorei. Daí comecei a cantar o que ela cantava em inglês da maneira que eu lia nas revistas, com a tradução ao pé da letra”. E veio o CD. “Mas demorou para ser prensado e conseguir as 500 cópias. Eu não tinha dinheiro, minha mãe era doméstica e não tínhamos condições. Por isso o CD só saiu quando eu tinha 13 anos”.

Gizele aos 18 anos de idade tem consciência plena de que seu trabalho feito aos 9 anos não é o que possa, nem de longe, ser considerado algo de qualidade. “Sou de uma família pobre, minha mãe é mãe solteira, sempre batalhou muito para me sustentar, o trabalho que fiz na época foi uma brincadeira de criança, agora estou preparada para algo de verdade, bem feito, com tudo o que já aconteceu em minha vida tive que me tornar uma pessoa madura ainda criança”.

Projetos? “Nada de Madonna! Como a Madonna mesma disse um dia: quero ter minha própria identidade, meu próprio estilo, estou em um período de transição. Pretendo lançar o CD ‘Antes só Do que Mal acompanhada’ com músicas inéditas e um medley de Cazuza. Desta vez quero ter êxito por um trabalho que fiz com a consciência de uma mulher e não de uma criança.”

“A Trash 80’s? Nem vejo a hora! Já ouvi falar demais desta festa e quero que todos dancem comigo as músicas que preparei. Acredita que até sonhei um dia que estava nesta festa”?

A Madonninha, ou melhor a pequena Gizelle Silveira com seus 1,53 de altura, parece que tem mesmo uma garra de leoa e é muito maior do que pode parecer

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