Um sabadão à noite desocupado, aliado a um especial do cultuado Radiohead, é um prato bem cheio para quem se julga indie de carteirinha. Eu e Juliana começamos já na sexta nosso ritual habitual de ligações para meio mundo e um trabalho gratuito de divulgação de baladas para nossos amigos. Sem quorum, porém, partimos eu e ela da minha casa mesmo. Coincidência ou não, passamos ao lado do Caravaggio. Fui bem devagar e só fitei a fila, para depois olhar para a Juliana com aquela cara de quem adorou o brinquedo, mas sabia que não era dia de Papai Noel. Antes que eu me manifestasse, ela soltou: “nem pense, precisamos nos desintoxicar hoje”. Ok respeitei a decisão e fomos para o DJ Club. Adeus Marquinhos Moura, bem-vindo Tom York.

A inocência do fliperama do DJ Club nos comoveu, mas as fichas acabaram rapidamente. A pista abriu. O som que há menos de um ano nos completava, não foi suficiente. Nos nossos olhos a mesma insatisfação.
Faltavam 10 minutos para as duas da madrugada, olhei para ela e, com cinismo, disse: “Você iria a Trash agora?”. A frase no futuro do pretérito parecia estar no imperativo afirmativo. Foi como fazer uma oferta de craque a um viciado. No caso, dois viciados, que não importa quem fosse o sujeito da frase, construiria o mesmo predicado: “vamos já!”. Simplesmente nos levantamos e partimos em busca da “felicidade”. A sensação de prazer da iminência da droga é maior que o próprio consumo.
Em dez minutos estávamos lá, nos entorpecendo daquele lugar. A bebida potencializou a sensação de contentamento. Para melhorar ainda mais, recebemos a noticia que a Fabí (baladeira desenfreada) estava lá. Nós a encontramos rápido, e ela estava num canto da pista escolhido a dedo. Como todo viciado, estávamos nos sentindo muito bem. Como em todo narcótico, o efeito também passou. Já não conseguimos mais ficar sem, sabendo que ela me faz mal às vezes…

Faz tão mal que já prejudicou nossa memória e fica difícil lembrar dos comentários que fazíamos antes de julho, quando conhecemos a festa. “Não pagarei R$ 20 para ouvir Xuxa”, dizia a Ju. O quinhão sadio da minha consciência concordava plenamente, e sempre adiava a curiosidade de conhecer a festa. Mas a mesmice da noite paulistana nos fez alterar a rota Vila Madalena-Vila Olímpia naquele 25 de julho. Lembro bem de ter ouvido Ray Parker Jr. na pista. Olhei pra Jú e o Davi, outro amigo que nos acompanhava, esperando uma indicação amiga. “É pra dançar mesmo?”. A ficha foi caindo aos poucos, lentamente. A cada música, nossos olhos se cruzavam, até um ponto em que a pergunta: “lembra disso?” Já não era mais necessária. Sabíamos que estávamos gostando, que a libido e a endorfina não eram liberadas simplesmente pelas pessoas bonitas ou pela bebida. Mas por aquele lixo de música que tocava, aquele Carnaval que não abria espaço para uma quarta-feira de cinzas. E o garoto que largou a namorada no meio da pista para sair pulando e quase quebrar a mão durante Pluct Plact Zum nos deu a certeza de aquele não era mesmo um lugar comum.

Ícones trash – Felipe

Gazebo – Acho que não conheço mais nada desse cara ou banda. Sei que freqüentou o movimento dos “new romantic” junto com o Duran Duran. História à parte, I Like Chopin é minha música baba predileta, que me fez até escrever para a produção do Gordo a Go Go quando a tiraram da vinheta da abertura. E curiosamente ouvi uma vez só na festa, que eu me lembre.

Le Compagne Creole – Isso me lembra as férias em Caraguá, a fita do Bebê à Bordo e tal. A música Le Bal Masque é podre, mas um dos maiores achados do Eneas, na minha opinião. E fiquei sabendo há pouco tempo que É Bom para o Moral, da Rita Cadillac, chupinhou uma música desses caras.

Ícones trash – Juliana

Bozo – O Bozo foi meu melhor amigo de infância. Desde a época em que era somente ele e o telefone, sem público, ao vivo e pela TVS ainda. Como eu adorava aquele palhaço simpático, que ainda por cima, me presenteava os melhores desenhos do mundo: Pica-pau e Tom & Jerry. Sem contar que o melhor presente da minha vida foi o dia em que eu fui à gravação do programa, com ônibus de excursão, quando eu tinha 8 anos de idade. Os cenários já haviam evoluído muito, e no meu dia, o Bozo desceu pelo arco-iris. Foi inesquecível.

Dominó – “Manequim, o teu sorriso é um colar de marfim”. O meu Dominó preferido era o Marcelo, ele era o mais safado, e tinha olhos verdes belíssimos. O da minha prima Camila (minha “companheira”) o Afonso – com aquelas sobrancelhas enormes. O Nil era quem cantava melhor e o Marcos (com aquele dentinho quebrado) precisava emagrecer, mas os cachinhos eram bonitinhos. Como eu os adorava, com todas as suas qualidades e defeitos. É a minha primeira lembrança de paixão platônica.

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