Por Trash 80´s

É só entrar o mês de dezembro que o “natalismo” (neologismo com licença poética) invade a tudo. Comerciais de televisão mostram famílias lindas que rodeiam uma mesa farta. Os filmes que passam são todos sobre algum acontecimento que envolve neve, papai Noel, e família. Os cantores genialmente (e muito “originalmente”) lançam cantigas meiguinhas que falam de paz, amor e estas coisas e tentam comover quem as ouve.

Essa época sempre foi propícia a movimentos de solidariedade. Um dos fatos que mais marcaram a década de 80 e que minha memória natalina abrange foi a música “We are The World”. Em 1985, o cantor Harry Belafonte teve a idéia de criar uma versão americana do projeto Band Aid realizado na Inglaterra, chamado USA for Africa, para ajudar a acabar com a fome na Etiópia. Belafonte telefonou para Lionel Richie, Michael Jackson e Quincy Jones e falou sobre a idéia. Richie e Jackson esceveram “We Are the World” em duas horas. A música teve a participação de 45 cantores e começou a ser divulgada nas rádios em março. Tocou durante o ano inteiro e em dezembro contou com todo o apelo da época de Natal. Não havia ninguém que não soubesse quase décor a letra ou que pelo menos fizesse um bom “embromation”.
Um pouco depois, nossos artistas tupiniquins copiaram a idéia. A canção “Chega de Mágoa” foi lançada no compacto intitulado “Nordeste Já”, em prol das vítimas da seca de 1984-85. A lista dos participantes é enorme, entre eles estavam Alceu Valença, Elba Ramalho, Alcione, Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Fafá de Belém, Leo Jaime, Milton Nascimento, Zé Ramalho, Zé Renato e Zizi Possi.
Nos anos 80, os natais nos veículos de comunicação não eram tão diferentes do que temos hoje. Os programas infantis eram aguardados ansiosamente pela garotada. A Xuxa era a mais aclamada, claro. Ela vinha sempre vestida de mamãe Noel, distribuía presentes, recebia convidados, cantava desafinadamente musiquinhas sobre o tema. O programa tentava ser o mais emocionante possível, cheio de clipes da cantora em que era cercada por crianças de todas as raças e muita natureza.

A Mara já seguia uma linha mais contida, até mesmo porque o SBT não liberava verba para pagar o cachê de convidados e presentes para a criançada. Então, ela se matava de cantar e desandava a falar mensagens comoventes em que a câmera enquadrava seu rosto em primeiro plano.

Os programas humorísticos da época também “incorporavam” o espírito natalino. Os Trapalhões, por exemplo, como em todo o resto do ano, continuavam a fazer piadinhas sem graça que envolviam mulheres ou tirar vantagens de outras pessoas. A diferença é que no Natal eles faziam as piadinhas vestidos a caráter. A Praça é Nossa também não mudava muito. Todas as “atrizes” boazudas apareciam vestidas de mamãe Noel e desfilavam em frente ao banco da praça – estranho que se passaram anos e anos e tudo continua igual.

A Sessão da Tarde da Globo fazia um especial na semana repleto de desenhos e filmes natalinos – quem é que não lembra de “A Rena do Nariz Vermelho” e o “Natal de Mickey” que devem ter passado umas 347 vezes? Para a ala adulta a programação nunca abriu mão do Rei. Roberto Carlos não fica longe da tela global há uns mil anos cantando sempre as “inéditas”: Jesus Cristo, Detalhes e Emoções – ninguém enjoa.

A Rede Record era a “boa samaritana” das emissoras e reprisava por mais um ano seguido todo o seu estoque de filmes bíblicos e os pastores oravam em horário nobre.
Missa do Galo era outro clássico na televisão. Me lembro perfeitamente que minha mãe insistia em assistir aquela coisa chata e tinha ano que me carregava para ir na igreja. Me fazia vestir a melhor roupa, a qual chamava de “roupa de domingo” e íamos as duas. Eu sempre dormia…

Do Natal, lembro com saudades do carinho com que meu pai colocava uma mesona de madeira (feita por ele mesmo) embaixo das árvores na nossa chácara no interior. E de como eu só comia melancia gelada e esperava ganhar o que havia pedido – sempre ganhava, mas sempre aguardava apreensiva.

Bastante tempo passou, eu já não acredito em Papai Noel e nem mais espero ansiosa por presentes. Mas no dia de Natal, assim como em todos os outros, desejo que todas as pessoas que amo estejam felizes e cheias de saúde. Não importa se a programação na TV é especial, se tocam musicas bonitinhas no rádio e se as pessoas se “convertem” a um sentimento festivo. A regra é única: felicidade sempre e não apenas uma vez por ano. Enfim, feliz natal, feliz amanhã, feliz depois de manhã, feliz carnaval, feliz aniversário, feliz desaniversário, feliz cada momento…

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