A Trash 80’s entrou na minha vida por acaso e eu já nem tenho certeza de quando foi. Sei que eu ia de vez em quando ao Cambridge desde o final de 2001, e certamente estive lá em alguns sábados do primeiro semestre de 2002. É provável até que eu tenha ido a alguma Trash 80’s ainda em maio, mês de sua estréia. Mas certeza mesmo foi a festa de aniversário de uma colega de jornal, em junho. Acho que nem ela sabia ao certo o que rolava lá. Então fica sendo essa, por via das dúvidas, minha primeira vez na Trash 80’s: um sábado de junho de 2002.

Desde então, salvo raríssimas exceções, estive sempre na festa. A partir de um certo ponto, eu e meus amigos – “criei” pelo menos mais quatro trashers – nem discutíamos mais aonde ir aos sábados. Só discutíamos a hora de chegar na Trash.

No meu caso, não é difícil entender o fascínio exercido pela festa. Nasci em 1971. Isso significa que em 1980 eu tinha 9 anos e em 1989, 18 anos. Ou seja: minha pré-adolescência e minha adolescência aconteceram inteirinhas nos anos 80. Nesse período eu passei por todas as fases do rapaz rebelde e ao mesmo tempo fã de música: fui headbanger, punk, depois comecei a ouvir pop e rock mais denso (como Joy Division), um pouco de eletrônico, e ainda teve o começo do britpop.

Tudo muito sério, não? Só que, ao longo de todo esse tempo, eu jamais fechei meus ouvidos para o que as FMs e até as AMs tocavam. Eu fazia o carão de ouvinte do Jesus and Mary Chain, mas lá no fundo… Lá no fundo eu também gostava de ouvir coisas menos presunçosas.

E fatores como o acaso e o ambiente externo também contam muito. Para que se tenha uma idéia, minha irmã teve um fã-clube do Menudo… E muitas vezes eu passava as tardes na casa do meu avô, que só tinha rádio AM e ouvia a América (não confundir com a Transamérica) o dia inteiro. A breguice de Carlos Alexandre, Almir Rogério e Odair José imperavam. Aliás, por que nunca tocou “Fuscão Preto” na Trash?

Sem contar que – juro que não estou inventando isso – durante muitos anos a TV Globo não pegou em casa (quando a antena ainda era no Jaraguá). Tanto é verdade que tivemos de ver a Copa de 1982 na Cultura. Pois qual era a alternativa? Assistir ao SBT! E à Gazeta e à Record! E dá-lhe Silvio Santos, Barros de Alencar, Carlos Aguiar e J. Silvestre, e dá-lhe novelas bregas como “Os Ricos Também Choram”, “Meus Filhos, Minha Vida” e “Leoa”… Tudo isso faz parte, digamos, do meu subconsciente.

Por isso foi muito fácil me adaptar à Trash: no fundo é uma questão de respeito à diversidade cultural. Quando descobrimos que há coisas bregas dentro da gente, fica tudo mais fácil. É verdade que o repertório da festa nem é tão trash assim – a palavra certa, creio eu, é kitsch. Mas não daria pra ter uma festa chamada Kitsch 80’s, né?

Escolher a Trash 80’s como diversão preferencial todas as semanas foi uma conseqüência natural do prazer que eu sinto lá. E demorou muito, mas acabei me apresentando – já no Caravaggio – para o povo habitué e que participa da lista. Sou muito tímido e reservado, mas aos poucos estou me enturmando.

Queria deixar registrado aqui meu reconhecimento ao Tonyy e ao Eneas. Detesto essa coisa de ficar puxando saco de DJ, citando nomes em rodinhas e tal (algo que a tchurma indie sempre faz e que me irrita muito). Mas esses dois merecem a babação de ovo, pela qualidade e seriedade do trabalho. A matéria que escrevi para o “Diário de S.Paulo” era o mínimo que eu poderia fazer para homenageá-los, e à festa.

Por fim, vamos às dicas. Quero citar três:

“Blue Savannah”, Erasure
Eu amo essa música, especialmente numa versão que não toca na Trash, meio à la Kraftwerk. Mas a versão que toca também não é a original e é bem boa. A melodia é linda, ao mesmo tempo triste e “pra cima”. Na minha opinião, o Erasure é o New Order sem superego. Ah, e eu fui aos dois shows da banda no Brasil (1989 e, se não me engano, 1996). Não esqueço o Andy Bell de collant cinza e chifres prateados rebolando em pleno Ibirapuera…

“Silent Morning”, Noel
Outro subproduto do New Order, bacana justamente por não se levar a sério. Eu acho essa uma das melhores músicas para dançar e cantar junto na Trash. E passei a gostar dela ainda mais quando um amigo meu falou: “Cara, você ouve isso ? Noel é muito baiano!” Baiano é ele!
“Dancing Queen”, Abba
Muita gente defende a tese de que o grupo sueco foi o mais perfeito da história do pop. Não sei se concordo, mas é fato que essa música está muito acima da média. Também cito “Dancing Queen” porque ela causa um transe de tal ordem nos trashers (basta rolar aquele pianinho do começo) que às vezes eu opto por ficar de canto, só apreciando o que rola na pista e no palquinho…

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