Por Lécio Rabello (Leco).

O mundo era dividido em dois grandes blocos econômicos: de um lado reinavam soberanos os Estados Unidos da América e de outro, a vermelha e perigosa União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Havia um muro, o ‘muro de Berlim’, que partia a Alemanha em duas metades: do lado de cá, a Alemanha boa, do outro, a Alemanha má. Ser executivo em Wall Street era estar no topo do poder e quanto mais sucesso e dinheiro acumulasse, mais inserido estivesse nos ideais do assim chamado American dream, mais respeito e admiração você receberia de seus iguais. Por aqui tivemos cruzeiro, cruzado, cruzado novo, cruzeiro de novo, e aos poucos a nuvem de tempos calados dissipava-se gradativamente.

Tudo isso estava muito distante, ainda que silenciosamente pairasse sobre uma geração de crianças e adolescentes mais centrados em seus próprios problemas, que raramente ultrapassavam o medo da prova de matemática do dia seguinte. Às vezes faltava dinheiro para comprar Dip’n’Lick, pois afinal não era sempre que dava pra comprar figurinhas e dar uma passada na Bombonière depois da aula. Os embalos de sábado à noite também eram outros. De acordo com sua idade (e o nível de compreensão de seu responsável) você poderia ir a uma danceteria, descer, ou então ficar em casa assistindo Viva a Noite, que não deixava de ser legal, porque tinha sonho maluco, concurso de gafieira e às vezes caía o soutien das mulatas. Vez por outra passavam de porta em porta pedindo gelo e organizavam bailinhos, nos quais meninos e meninas dançavam música lenta juntinhos e, dependendo da sorte podiam até beijar, ou então ficar com a vassoura mesmo. Os discos eram meio caros, e comprava-se muito disco de novela. Estes eram ótimos, porque sempre traziam uma música de bailinho e algumas pra dançar bastante.

As novidades, inclusive, sempre apareciam no Viva a Noite, ou no Chacrinha: Dominó, Polegar, Tremendo, Ciclone, Locomia, e, é claro, Menudo! Em 1984 eles fizeram show no Morumbi e muitos pais ficaram com os ombros destruídos por levarem seus filhos de cavalinho. Os Menudos, lembro até hoje, falavam esquisito porque eram de outro lugar. Quem também falava outra língua era Cyndi Lauper, Madonna, Michael Jackson, Nina Hagen, Europe, Information Society, New Order, Pet Shop Boys, Kiss… Algumas mães não deixavam seus filhos ouvirem Kiss porque eles eram muito barra-pesada, que nem o Camisa de Vênus, que tinha até um disco contendo algumas músicas proibidas de tocar em rádio. Agora A Turma do Balão Mágico, Trem da Alegria, Abelhudos, Bozo, Xuxa (aquela que puxava orelha de criança na Manchete), Mara Maravilha, Sérgio Mallandro, o disco da Chispita, esses podiam, porque eram de criança. Revista Alegria também, que saía todo dia 25 de cada mês.

He-Man, Thundercats, e Comandos em Ação, eram ítens obrigatórios! Quem tinha mais dinheiro tinha Pégusus, Colossus ou… Máximus! As meninas brincavam com uma boneca gorducha chamada Quem Me Quer, umas que um velhinho triste anunciava (Chuquinhas) e se gostavam de desenhar, brincavam com a Escolinha da Moda. Os meninos contavam com Vira Monstro Vira Herói, mas o que todo mundo gostava de virar mesmo eram as caras de Cara-a-Cara. Pular de Pogobol cansava logo, mas você não era nada sem um pogobol. Nada. Se o seu cabelo não fosse arrepiado e comprido atrás você era normal, mas não estava na New Wave. Quanto mais esquisito fosse o seu cabelo melhor seria sua reputação e quanto mais assimetria melhor.

Estas e muitas outras lembranças jazem dentro de seu cérebro prontas para serem acionadas por algum texto, foto, filme ou música. No caso desta última, basta o primeiro acorde e o presente instantaneamente nos conecta ao passado, e em uma velocidade espantosamente grande. Neste caso, um passado gostoso, irresponsável, inconseqüente e despreocupado. Seria este o fascínio da festa lixo que une professores, advogados, desempregados, jornalistas, analistas de pessoas e de sistemas, gays, lésbicas, simpatizantes, sapatos caramelo, all stars, e toda sorte de rótulos que nos põem com ou sem nosso consentimento? Nos transportar a um período em que o mundo pouco ou quase nada de nós exigia?

Há quem acredite que vivemos hoje em uma aldeia global. Os Estados Unidos ainda reinam, e apesar do muro ter ido parar em um entulho qualquer a Alemanha sempre vai ter um pouco aquela cara de má. Wall Street ainda é sinônimo de sucesso, ainda que a Paulista tenha perdido espaço para o Complexo Berrini. Alguns já reconhecem o American dream como equivocado e nossa moeda é tão real quanto nossa recessão.

Enfim, o que importa é que às sextas e sábados, em um grande centro urbano chamado São Paulo, um grupo de pessoas se reúne para celebrar uma certa nostalgia que reside dentro delas como uma chama latente, que somente se apagará quando o consciente coletivo de toda uma geração estiver em outro lugar.

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